mo•jo n., 1. short for mobile journalist. 2. a flair for charm and creativity.

Words

  • by Bianca M. Saia
  • published from Syria
  • on 2011.01.13

Desarmados pela hospitalidade síria

Quando contamos ao nosso anfitrião em Damasco que no Canadá é costume levar sua própria bebida e por vezes até comida à uma festa ou churrasco, ele parecia incrédulo.

“O que você faria nessa situação”, Wajdi?, eu perguntei.

Rindo muito, ele me respondeu: “Eu agradeceria o convite, mas passaria longe dessa festa!”

A hospitalidade na Síria é sagrada. É código de honra, que corre na veia dos seus habitantes há gerações. A morada tradicional síria, das mais simples aos palácios reais, tem uma sala dedicado aos visitantes. O cômodo é decorado com a melhor mobília da casa e a sua porta fica destrancada. Segundo a tradição, qualquer um que estivesse de passagem poderia entrar e se hospedar, por um dia ou um ano. E, historicamente, apenas no terceiro dia de estadia é que o viajante precisaria dizer seu nome e porque veio.

É difícil passar um dia na Síria sem ser desarmado pela generosidade do seu povo. Logo no nosso primeiro dia no país, encontramos por acaso na rua Aesha, uma garota que havíamos conhecido brevemente num ônibus na cidade de Beirute, no Líbano. “So luck! So luck see you”, ela nos disse, com a expressão e abraço de quem encontra um amigo que não vê há anos.

Misturando mímica e vocabulário do inglês Básico 1 andamos pelas ruas movimentadas da cidade, com a Aesha me segurando pelos braços e se oferecendo para pagar, apesar dos nossos protestos, nozes e pizzas árabes. “You my visit, my guest, I pay for you, please!”

Nós não fizemos muita onda, já que tudo era bem baratinho. Horas mais tarde, fomos a um restaurante. Apesar de Esha não ter comido ou bebido nada além de água, ela foi com a carteira na mão em direção ao caixa. Sem jeito de deixar uma estudante de 22 anos pagar por uma conta razoavelmente alta para os padrões locais, o Beto correu atrás dela.

“No no no no no, you don’t have to pay, plese, you student, no need”, pediu o Beto.

“Yes, yes please, please, my pleasure, please”, respondia a Aesha.

Por longos e constrangedores minutos, com pequenas variações no vocabulários e os gestos cada vez mais expansivos das duas partes, o diálogo prosseguiu. Esha finalmente desistiu quando o dono do restaurante a confiou, com a fisionomia resignada, algo em árabe. “Eles são americanos, eles são assim”, foi o que a gente pescou do diálogo.

Estar num país onde as lojas são decoradas com fontes em formato de bule de café, derramando o líquido continuamente, simbolizando a generosidade, nos faz pensar sobre as nossas atitudes no ocidente. Onde a gente come sozinho em frente ao computador, ou se sente meio ofendido se a visita não traz uma garrafa de vinho ao jantar. Onde geralmente cada um paga exatamente o que consumiu no restaurante. Falta de grana, você diz? Pois o poder aquisitivo dos sírios é muito menor do que o nosso.

Wajdi, nosso anfitrião em Damasco, passava quase todos os dias em jejum. “Eu não gosto de comer sozinho, prefiro esperar a noite chegar pra comer com vocês. Refeição é algo que se compartilha”, ele dizia, noite após noite, seja num restaurante incrível ou em casa, com um pacote de comida farta e quentinha nas mãos. Que ele fazia questão de nos pagar. E que a gente, ocidental demais, tinha uma dificuldade enorme em aceitar.

Post Scriptum: esse texto foi publicado em um Internet Café muito especial, na cidade de Homs. Ao sentar, sem que pedíssemos nada, recebemos para nossa surpresa uma cerveja do atendente. “Welcome”, ele disse, palavra que aliás ouvimos várias vezes por dia, até de quem não fala inglês. Quando fomos pagar a conta – um total combinado de 6 horas de Internet, um scanner e várias impressões – fomos surpreendidos outra vez.

“How much”, we asked.

“No sir, it’s free”, respondeu o atendente.

“Free? No possible, free! 6 hours Internet, printing, scan, no free!” protestamos.

“Yes, sir. Today, first day business. Thank you, thank you very much, please welcome”, ele nos disse, entregando um cartão da loja.

Comments

4 people commented so far
  1. Chega a ser comovente…. e nos leva a pensar o quanto que a gente é mesquinho, por mais que pensamos ser generosos.

    by J. Carlos on 2011.01.18
  2. I loved this one!!
    So there is no “potluck” concept for them I guess.
    So when you come back home will do Damascus way @ your place.
    Salud!

    by JaNa on 2011.02.01
  3. Eu sem querer cai no site de vocês, parabéns pelo trabalho, achei a materia da Nova Zelândia sensacional, e como um bom descendente de Sírio, já estive nesses lugares da Síria e sei do que estão falando, realmente é algo totalmente diferente e inacreditável.
    Eu confesso que por enquanto entendi que vocês sao viajantes pelo mundo, parabéns!

    by Ahmed Ibrahim on 2011.03.31
  4. Actually, I really don’t see the sanrceio happening at all. A successful Israeli-Syrian peace deal would rather fast-track an Israeli-Lebanese peace deal. Syria has more to lose if it signs a deal. They will lose control’ over Hezbollah which would mean that they lose significant control over Lebanon. Internally, the people would expect greater reforms at a faster pace no use of emergency law if you no longer have any threats and it is likely the government could lose control. No Israeli boggy monster no control. Syria needs to show that it is trying to work towards peace in order to alleviate international pressure. The Hariri Tribunal is almost ready to start and its no surprise that Syria had some hand in it they were in-charge of security in Lebanon at the time. Syria will likely use the peace process as a Get Out Of Jail Card .

    by David on 2015.07.06

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