Words
Subindo ao inferno em Whistler
O esqui entrou na minha vida há cerca de quatro anos, durante meu primeiro inverno no Québec. Foi uma paixão quase imediata. Quase porque nas primeiras descidas tudo joga contra você: quedas frequentes e brutais, frio que endurece os pés e queima as mãos, medo que faz doer a boca do estômago. Comparação dolorida tanto com os adultos como com as crianças que já nasceram com um par de esquis sob os pés.
Fora o mantra “o-que-é-que-eu-estou-fazendo-aqui” girando sem parar na minha cabeça.
Mas ainda no primeiro dia ela chegou: ah, a primeira descida sem quedas! Ah, agora eu sinto que sei o que estou fazendo! Sinto que como todo viciado em heroína eu vou passar a vida tentando repetir aquele “high” original.
A sensação é comparável a comandar uma montanha-russa com os próprios pés. Botar a quinta marcha e acelerar numa estrada que não tem limite de velocidade.
O vento que passa a me fazer sentir desperta, viva. A paisagem do céu tão turquesa, dos pinheiros tão brancos, das montanhas tão majestosas que já pode começar a ser apreciada. O medo que se transforma em adrenalina. Tanta intensidade, tanta beleza.
Tudo isso pra dizer que em Vancouver havia apenas um programa que eu não podia deixar de fora: esquiar em Whistler. O complexo, que fica a cerca de 150 km de da cidade-sede dos Jogos Olímpicos, é frequentemente votado como uma das melhores estações de esqui da América do Norte. Um destino que dispensa maiores apresentações para os amantes esportes de inverno.
Conseguimos um bom pacote, oferecido pela cia Greyhound: CAD$130, pelo transporte ida e volta de ônibus, bilhete de entrada da montanha e aluguel de todo o equipamento. E naquela quarta-feira, o céu não tinha uma nuvem. A temperatura estava na casa dos zero graus. 17 cm de neve haviam caído durante a madrugada anterior. E tradicionalmente durante as Olimpíadas de Inverno as montanhas que sediam as provas costumam ficar bem mais vazias. Isso porque os habitues ficam com medo de enfrentar as multidões que vêm acompanhar as competições ou apenas curtir a atmosfera festiva da cidade.
E pra fazer esse dia ainda mais perfeito, só faltava uma coisa: a companhia do novato Beto, com quem eu ia dividir minha paixão pelo esporte pela primeira vez.
E eis que a nossa primeira tentativa de descida juntos teve ares de tragédia anunciada: devido às altas temperaturas o solo estava mais pra gelo, duro e escorregadio, do que pra neve. Meu querido novato ficou frustrado ao sentir que a descida era muito acima do seu nível e ameaçou passar o dia num bar tomando cerveja após poucos minutos de tentativas e quedas.
O que tornava a situação particularmente preocupante era que esta era a pista que estava claramente marcado como a mais fácil de toda a montanha.
Mas seguindo a dica de um instrutor, entramos de volta nas gôndolas para subir mais alto, onde a neve estaria em melhores condições.
Chegando lá em cima, um segundo de distração foi o que bastou: nós nos perdemos um do outro. Na minha primeira verdadeira descida tudo que fiz foi procurá-lo. Nada. A montanha era difícil, exigente. Várias pistas bastante estreitas, sem proteções laterais, bastante inclinadas e longas. Muito mais íngremes do que aquela primeira pista onde o Beto quase desistiu.
E o que poderia ter sido um dia de delicioso desafio virou uma eternidade de angústia. Passei horas temendo pelas pernas do Beto, pelo nariz do Beto, pela vida do Beto. Tendo como vista uma das paisagens mais lindas que já vi em toda a minha vida. Dentro de um dos meus mais sonhados destinos. Esquiando e rezando, por vezes tonta de medo, lutando pra controlar minha emoções. Mas falhando pateticamente durante quase todo o tempo.
Chorei de alívio ao reencontrar meu amor que tinha um ar feliz e que, fora um queixo vermelho e ralado, parecia estar com todos os membros intactos. E que, aparentemente, se divertiu bem mais do que eu. Por que que a gente é assim?



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