Words
Togean Islands: Pague para entrar
Primeiro eu tive a idéia de visualizar cachoeiras: geladas, poderosas, daquelas que tem um poço fundo na frente. Me imaginei deixando a água descer com força pelo meu corpo, sentindo o choque térmico bem-vindo num dia quente. Em seguida fiz respirações profundas, inspirando pelo nariz e expirando pela boca, sentindo meu ventre aumentar e diminuir de tamanho. Aí olhei para os céus e fiz um pedido, que veio sincero, do fundo da alma.
-Se alguém estiver me ouvindo, faça com que essa serra termine logo e que meu enjôo passe, pelo amor de Deus!
E pode apostar: quando a católica de meia-pataca aqui reza, é porque a o bicho está pegando, e feio. E na estrada de Tentena a Poso, primeiro trecho da jornada da ilha de Sulawesi que leva às Togean Islands, o bicho apavarou geral. A serra sinuosíssima e in-ter-mi-nável – não só uma, mas três – fez diversas vítimas no ônibus. Nunca vi tantos saquinhos de enjôo cumprirem as suas missões de vida antes. Na TV do ônibus – um belezinha de tela plana, por sinal – video-clips de um aspirante a Falcão indonesiano tocava incessantemente no repeat. No último volume, é claro. Felizmente eu trouxe meus fones de ouvido noise-cancelling, que deveriam fazer parte da bagagem de todo mochileiro. O motorista não se acanhava de fumar seus cigarros dentro do ônibus fechado e vedado pro ar-condicionado.
Dez horas depois, como quem sai de um barco em dia de tempestade, colocamos os pés em terra firme. A idéia inicial, de seguir viagem no dia seguinte pela manhã, foi sumariamente abortada: nenhum de nós tinha estômago para sequer cogitar entrar em outro ônibus. Fechamos a noite em um restaurantezinho próximo ao hotel, que exibia travessas de carnes misteriosas, aparentemente frias. “O que é isso”, perguntamos, apontando para a primeira travessa. “Au! Au! It’s dog”, disse a dona.
“E isso?”, apontando para a travessa ao lado.
“Batman!”. Sim, carne de morcego. E carne de cachorro.
Nós pedimos um miojo cada. “No meat, NO MEAT, please”!
Segundo dia
Tentena tem algumas atrações bacanas: praia e lago, uma caverna recheada de ossos humanos, bem Indiana Jones, além de uma cachoeira das mais bonitas que já vi, em qualquer país (vide foto acima). O jeito mais fácil de curtir essas atrações é alugando um carro com motorista. Nos juntamos a outro casal e rachamos a conta de 350 mil rúpias (Cerca de 38 dólares) – incluindo carro, motorista e gasolina – e curtimos um dia inteiro de passeios. A gerente do Hotel Victory – muito bacana, por sinal, com funcionários bem simpáticos e prestativos – nos ajudou a organizar tudo.
E à noite teve jogo da Copa. Brasil X Holanda. Na torcida, formada no saguão do hotel, dois holandeses, alguns alemães, uma francesa, e a grande maioria indonesianos que torciam meio a meio: O Brasil, como se sabe, é sempre um queridinho mundial. A Holanda, colonizadora da Indonésia, deixou seus traços e seus simpatizates por lá.
O resultado? Voltamos pro quarto, eliminados, com a bandeira entre as pernas.
Terceiro dia
Chegamos cedo na rodoviária de Tentena: era preciso pegar um transporte até Poso, uma viagem de cerca de duas horas. Forrei meu estômago de Gravol (pílula anti-enjoo) e pude viajar tranquila. Mas uma das nossas companheiras de viagem não teve a mesma sorte. Na saída, notamos que ela usou a própria bolsa como saquinho de enjoo. Drama.
Em Poso, fomos de carro – um veículo grande, com dois bancos de passageiros na parte de trás – até Ampana. Onde caberiam 6, eles enfiaram 10. Adultos. E duas crianças. Sem contar nossas malas e os obrigatórios sacos de arroz. Mais 6 horas e meia de viagem, no aperto, no calor e na vertigem.
“O que é isso, uma miragem”?? Não Bia, é Ampana. Desce.
Numa cidadezinha que mal tem um rua que vem e outra que vai, o telão que eles montaram para o jogo daquela noite impressionava. A galera, sentada na rua, vaiava o eventual pedestre que passava em frente ao projector, fazendo uma sombra gigantesca. A noite foi boa: derrota argentina, num humilhante 4 a zero. Quase deu pena do gordito.
Quarto dia
Quase todos que vão às Togean Islands se hospedam no Hotel Oasis. Não só ele fica ao ladinho do porto, como conta com camas king-size e funcionários que tem muitas dicas sobre as ilhas. Por 90 mil rúpias o quarto – ou 10 dólares – está bem pago.
E como era domingo, não havia barco público disponível. Foi preciso pagar mais caro num barco privado: 100 mil repisa a cabeça. A viagem é feita em duas partes: de Ampana a Wakai, quatro horas debaixo de um som absolutamente ensurdecedor do motor, que impede qualquer bate-papo. Meu fones de ouvido, salve salve, me salvaram a vida de novo.
Em Wakai o barco do hotel Paradise (este grátis) estava à nossa espera: mais uma hora de viagem, sob a chuva e a paisagem sublime da região.
Quando chegamos no Paradise já eram quase quatro da tarde. A fome absurda, o cansaço, a bunda quadrada. Três dias de viagem. Quatro dias de trajeto.
E quer saber? Por esse lugar, eu faria tudo de novo.





Comments
Olha Bi, pra fazer toda essa ‘odisséia’ uma segunda vez, o lugar dever – realmente ser uma coisa do outro mundo.
Só de ler a matéria acabei se solidarizando com o seu enjoo. Comi uma banana com mel e passou .
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