mo•jo n., 1. short for mobile journalist. 2. a flair for charm and creativity.

Words

  • by Bianca M. Saia
  • published from Cambodia
  • on 2010.09.05

Imagine, se puder

Imagine que de um dia pra outro você não tenha mais direito de ouvir música ou dançar. Que qualquer tipo de máquina seja proibida, dos relógios de pulso aos carros. Que não se possa mais ir à escola, ao trabalho, ao cinema, ao médico, à igreja, ao teatro. Nem usar papel e caneta. Que você seja forçado a abandonar a sua casa pra trabalhar no campo, entre 12 e 20 horas por dia. E que mesmo assim, você quase morra de fome.

Imagine se te proibissem falar de amor. E até de usar seus óculos.

Agora imagine que isso aconteceu pra valer no Camboja. E que só faz 35 anos que uma das tentativas mais radicais de transformação de sociedade havia começado. Entre 1975 e 1979, quase um terço da população do país do sudeste asiático morreu de fome, de doenças, de tortura ou assassinato. Os carrascos? Seus próprios conterrâneos, cambojanos membros da organização ultra-esquerdista do Khmer Rouge e liderados por Pol Pot.

Seu objetivo? Criar uma sociedade agrária auto-suficiente e isolada do resto do mundo. Uma sociedade onde o único conhecimento de valor fosse aquele ligado à agricultura. Onde os médicos, professores, eletricistas, artistas, motoristas, monges budistas ou estudantes sejam subitamente considerados como inimigos e mereçam a morte. Lenta e dolorosa.

Mais de 300 killing fields, ou campos de morte, estão espalhados pelo país. Nesses campos, valas coletivas guardam os restos mortais e as almas de quase 3 milhões de pessoas, os “inimigos do regime”. Alguns deles, como esse em Choeung Ek, próximo à capital Phnom Penh, estão abertos aos visitantes. O lugar funciona como um memorial, um museu e um cemitério maldito.

Ao cruzar com uma pessoa de 40 anos ou mais na rua, uma coisa é certa: ela carrega essa cicatriz na pele. Ela sabe como é acordar todos os dias por quatro anos sem saber se aquele dia seria seu último. Ela sabe o que é ter sua humanidade e dignidade roubadas. Talvez ela saiba o que é perder toda a família.

Ou ela sabe o que é ser um assassino. Ela sabe o que é ser arrancada de casa e, ainda criança, ser treinada para ajudar o regime que talvez tenha matado seus próprios pais. Ela sabe o que é matar crianças a pauladas e torturar mulheres grávidas.

(Como a grande maioria dos soldados foram recrutados na infância e adolescência, eles receberam o perdão da justiça, já que eles não tinham consciência dos seus atos).

MInha cabeça dá nó quando eu tento imaginar que nesta terra, carrascos e vítimas, neste caso nada mais do que dois lados da moeda, hoje caminham lado a lado nas ruas. Como dormir com um barulho desses?

Mas desse assunto, aqui pouco se fala. A hora é de construir, sem olhar pra trás. Essa história não se ensina nas escolas e não se discute nos botecos. Uma lembrança ruim, que o povo coletivamente luta para esquecer.

Comments

4 people commented so far
  1. Euu nem consigo imaginar tudo isto, nem no pior pesadelo, parece impensavel. Só posso concluir que, de vez em quando, loucos sobem ao poder, inventam bobagens, impoem pela força aos outros e que toda uma sociedade sofre as consequencias. É incrível e me dá uma pena da humanidade…

    by Eliana on 2010.09.05
  2. Tudo isso daria um ótimo enredo de tema para mais um best seller de Stephen King !

    E ainda falam que Hitler era bicho ruim.

    Eu heim…

    by J. Carlos on 2010.09.12
  3. Muito triste né Bi? O pior é que ninguém no mundo sabia sabia do que estava acontecendo com eles. Se sabiam, fingiam não ver.
    Lindo o texto. Obrigada.

    by Bel on 2010.09.14
  4. Ma Bibiche,
    muito interesante, obrigado de partilhar
    tu es a minha porta pro mundo

    tell me more!!

    by JaNa on 2010.09.29

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