Words
Índia e a crise de identidade
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Ao pousar em Chennai, percebi que eu também havia chegado na cidade de Madras. Mas quando eu quis explorar o estado de Madras, fiquei sabendo que na verdade eu iria passear no estado de Tamil Nadu.
Não sei muita coisa desse mundo, mas nunca vi país que gosta tanto de mudar o nome dos seus lugares tanto quanto a Índia.
Do mesmo jeito que Istambul já foi um dia Constantinopla, Mumbai se chamava Bombaim, Kolkata era Calcutá, Bengaluru já foi Bangalore, e Haora, Howrah.
E isso, só pra ficar com a mudança das cidades mais importantes.
Esses segundo batismos começaram a acontecer nos anos noventa, quase cinquenta anos após a independência. Nesse momento uma nova safra de políticos estava querendo afirmar a “indianidade” do país, deixando pra trás certos vestígios do seu passado colonial.
Podemos dizer que muitas das mudanças até foram justificadas: os ingleses haviam criado certas aberrações ao soletrar o nome de algumas cidades na Índia de acordo com a língua inglesa. Assim , Kanpur virou “Cawnpore” e Pune havia virado a “Poona”.
Esses erros foram felizmente consertados. Mas como explica Shashi Tharoor no seu excelente livro de ensaios sobre a Índia, The Elephant, the Tiger and the Cellphone, em nome da tradição ou precisão histórica algumas mudanças foram longe demais.
Como conta Tharoor, Bombaim vem do português Boa Bahia. Mas a cidade nem existia antes do período colonial. Ela se desenvolveu a partir de um conglomerado de vilas de pescadores, e uma delas talvez se chamava Mumbai.
Madras, um nome que evoca tantas imagens de tradição, sabores e exoticismo – e que virou nome de itens como jaquetas e molhos curry– sofreu eutanásia.
Ao menos oficialmente. Quando estive em Chennai, percebi que o nome antigo ainda era usado, talvez tanto quanto o novo nome. Depois fiquei sabendo que Madras, ao contrário das alegações do Sr. Político, pode ter sido derivado de uma palavra em Tamil, a língua local.
Parece que ao invés da anunciada restauração da identidade, essas mudanças servem mais como um f*** you aos britânicos. Foi um jeito de fazer os colonizadores, em sua maioria já mortos, terem que fazer uma ginástica com pronúncias desconfortáveis.
Senão, como explicar a mudança da principal estação de trem de Mumbai, o Victoria Terminus – conhecido pela sucinta sigla “VT” – para Chhatrapati Shivaji Maharaj Terminus?
Esses políticos parecem jogar o bebê fora junto com a água do banho ao eliminar nomes que já tinham virado marcas reconhecidas internacionalmente e que refletiam a história do país. “Somos quem somos,” escreve Tharoor, “o produto de uma história que não pode ser negada, e os nomes das nossas cidades refletem os séculos de influência estrangeira que resultaram na Índia de hoje.”
Mais bobo ainda é pressionar quem fala outras língua a utilizar esses novos nomes. As convenções que determinam como um lugar vai ser chamado no resto do mundo sempre foram arbitrárias. Um defensor de sensibilidade culturais pode até querer me corrigir se eu usar hoje em dia o nome Bombaim. Mas essa mesmo pessoa certamente não vai reagir se eu disser Nápoles ao invés de Napoli, ou se eu usar a palavra Alemanha ao invés de Deutschland. Ninguém é pressionado para chamar Athenas Athinus, Damasco Dimashq, ou o Japão Nippon.
Em inglês, Côte d’Ivoire (Costa do Marfim) foi traduzida para Ivory Coast, mas ninguém chama o Rio de Janeiro de River of January, ou Buenos Aires Pleasant Winds.
Os franceses, com sua notória rejeição de tudo o que é inglês, chamam os estados americanos de Californie e Floride, apesar desses nomes terem vindo do espanhol. Mas eles deixaram New York em paz.
E quase em nenhuma língua Londres é chamada de London.
Tharoor compara essa mania de rebatismos a uma antiga e insensível tradição indiana: mudar tanto o nome como o sobrenome das mulheres quando elas se casam. Isso é uma sinal que sua vida antiga acabou e que sua identidade será totalmente determinada pela nova família.
Já eu gosto de Bombaim. Gosto de como o nome soa. E decidi manter seu nome de solteira intacto.

Comments
“The French, in their endearing rejection of all things English…” Have to disagree with you there! People in France (especially those from Paris) use many English words in their current everyday vocabulary…even much, much more than French Quebeckers do!
Beto:
Interesting text about the use of names and labels. This could be greatly expanded in a superb essay examining double standards and own culture-centrism. People are very sensitive and protective about their own names and codes – but have no problem in violating those of others. You will find plenty of examples outside India.
Going North?
You’re right, Sonia. I guess I had my fellow Québécois in mind.
I want to to thank you for this great read!! I absolutely
loved every bit of it. I’ve got you book marked
to look at new stuff you post…
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