mo•jo n., 1. short for mobile journalist. 2. a flair for charm and creativity.

Words

  • by Roberto Rocha
  • published from Fiji
  • on 2010.02.27

O desconto que parecia calote

fiji-blog 4

Ainda estou pra ver um bom negócio que venha disfarçado de calote. Geralmente o que encontramos é o inverso. Os caloteiros são verdadeiros mestres em engenharia social: feito hackers, eles improvisam uma ligação direta no impulso inato que todos nós temos de confiar nos outros.

A agente de viagem que tentou nos vender um pacote de traslados para as ilhas de Fiji, no aeroporto internacional de Nadi, estava fazendo tudo certinho: seus sorrisos eram largos, e seu calor humano, farto. Ela parecia curiosa sobre nós. E explicou em detalhes quais opções se enquadrariam nos nossos planos e no nosso orçamento.

Decidimos comprar um “Bula Pass”, bilhete que dá direito a traslados ilimitados entre o continente e uma série de ilhas a oeste de Fiji, durante 7 dias. Com esse pacote, podemos decidir por quanto tempo queremos ficar em cada ilha, escolher as paradas que nos parecem mais interessantes e viajar no nosso ritmo. Por $300 Fiji dollars – cerca de $150 USD – parecia a opção ideal.

Enquanto eu pegava a minha carteira, nossa agente e a sua colega começaram a discutir animadamente em Fijian. Entre vários sons ininteligíveis, escutei “Fiji dollars” e “New Zealand dollars”. Uma delas fez uma ligação que durou 5 minutos. Finalmente a outra disse: -

Há um erro no catálogo que eu te mostrei. Os preços foram mudados recentemente. O Bula Pass custa na verdade $391 Fiji dollars.

Eu entendi tudo. Em 30 minutos o único barco que faz esse passeio estaria zarpando. Estávamos cansados após viajar por 25 horas e loucos pra relaxar numa praia tranquila. Desperdiçar um dia em Nadi, a insossa cidade portuária onde desembarcamos, parecia uma péssima alternativa. Nessas circunstâncias, o que seriam outros $90 FJD para dois gringos sedentos de sol?

Eu olhei o catálogo de novo. Estava escrito $299. Fiji dollars. Válido até 31 março de 2010. Elas reconheceram o óbvio, mas insistiram que não podiam fazer nada, que o preço estava obsoleto. Eu pedi à Bianca que ela pegasse as nossas coisas. -Vamos embora. Vamos procurar outro lugar.

Nossa agente retrucou:
-Eles vão te dar o preço novo, aonde quer que você vá. O preço é determinado pelo operador do barco.

Eu me virei e olhei pra ela.

-Se você nos vende algo por $299 e na última hora muda pra $391, eu perco a confiança em você.

Ela me olhou como alguém que acaba de receber más notícias mas que não pode fazer nada.

Sair andando é geralmente o último recurso no arsenal do negociador quando ele falha em conseguir um preço melhor. A ameaça de perder um cliente geralmente amolece até o mais determinado dos mercadores. Nossas agentes? Ficaram em silêncio enquanto deixávamos o estabelecimento.

-Qual é o plano agora?, a Bia me perguntou. Minha melhor e única idéia era ir diretamente ao porto de Nadi e ver o que a gente poderia conseguir por lá. Fomos andando em direcção aos táxis. Do andar de cima, a nossa agente botou a cabeça pra fora do escritório que dá pro lobby do aeroporto.

-Voltem! Nós vamos te dar aquele preço!
-Quanto, $299?
-Sim, voltem!

A gerente, que trabalhava no porto, ligou dizendo que iria cobrir o preço anunciado. Nós só teríamos que pagar o depósito na própria agência e o resto na marina.

-E se eles não corrigirem o preço?

-Eu sei que você não acredita em mim. Mas eles disseram que vão cobrar $299. Mostrem a ela este catálogo. E digam que foi a Lucy que mandou vocês.

-Se eles não fizerem o preço, posso voltar aqui e pegar meu dinheiro de volta?

Lucy sorriu. -Sim. Você pode até trazer a polícia se quiser.

Já no porto, a gerente parecia perplexa ao ver o catálogo.

-Onde você arranjou isto? Este catálogo não deveria estar disponível.

Foi quando descobrimos que o preço do pacote era, de fato, $391.

-Tudo bem, vou fazer esse preço pra vocês. Mas eu fico com o catálogo!

Comments

0 people commented so far

Custom Ad

Leave a comment