mo•jo n., 1. short for mobile journalist. 2. a flair for charm and creativity.

Words

  • by Roberto Rocha
  • published from Fiji
  • on 2010.02.27

Dançando com dois pés esquerdos em Fiji

fiji-blog 11

Lulu, nosso anfitrião no Nabua Lodge “resort”, em uma das ilhas Yawasa, em Fiji, nos anunciou que, agora, éramos parte da sua família. Contando comigo e com a Bia éramos sete à mesa de jantar, incluindo as meninas alemãs e os rapazes noruegueses. Lulu continuou, dizendo que esta família cresce a cada dia quando os novos hóspedes chegam no albergue. Contam-se dúzias de redutos de mochileiros à beira-mar salpicados pelas ilhas, com quartos privados ou dormitórios mistos. E onde a electricidade não dura mais do que cinco horas por dia.

A cada check-out – Lulu anunciou num tom solene – a família diminui de tamanho outra vez.

Nós tínhamos acabado de dividir uma refeição composta de peixe frito, vagem, cenoura e batatas, sob uma cama de macarrão instantâneo oriental.

“Agora vamos lhes mostrar as danças de Fiji. Venham!”, Lulu pediu, nos mostrando o salão anexo, distante alguns passos do pátio onde comemos.

Os homens, escorregadios como peixe, sumiram. Como nós, eles estavam de barriga cheia após a grande refeição. E, sendo homens brancos ocidentais, certamente eles não arriscariam entrar na pista de dança antes de ter tomado algumas cervejinhas.

“Façam duas filas de frente para o bar”, ele disse. Duas filas de duas pessoas cada: Bianca e eu, além das duas garotas alemãs. A primeira dança, chamada “Bula Dance”, é mais ou menos assim: faz-se o sinal de carona, com o dedão, a cada lado da cabeça. Rolam-se os punhos pra cima e pra baixo. Em seguida, fazemos uma semi-Macarena e um jogo de pélvis pra frente, no melhor estilo “em-cima-em-baixo-e-puxa-e-vai”. Todos gritam “Bula!” e fazem um giro de 90 graus para recomeçar a dança.

-Agora com a música!

Um segundo funcionário estava manejando o som atrás do balcão do bar. Mas nenhum som saía das caixas. Após dois minutos de silêncio, houve um estouro por alguns segundos de uma canção que lembrava um reggaeton polinésio, e em seguida, silêncio. O dj nos olhou nervosamente. Lulu não se mexia, seu dedinho de carona ainda armado e pronto do lado direito da cabeça.

Mais silêncio. Novos estouros da música errada. O dj olhava pra baixo, com cara de quem foi pego colando na prova. Lulu virou a cabeça e se desculpou. “Foi mal, gente! Só mais um minuto”.

O ar ficou carregado. As alemãs se entreolhando. Nós éramos quatro, tentando bancar os bons hóspedes, parados no salão escuro e silencioso com dois Fijians nervosos e um aparelho de som quebrado. Lulu começou a dizer algo em Fijian para o dj, que apenas sacudia a cabeça, impotente.

É perfeitamente possível que as alemãs estivesses apenas entediadas ou achando a situação engraçada. Mas é difícil resistir à tentação de projetar a própria paranóia nos outros: na minha cabeça, elas estavam rezando pra que
um herói aparecesse e colocasse fim neste longo silêncio desconfortável.

Coloquei delicadamente as mãos no ombro de Lulu, tentando salvar a situação. “Não se preocupe. Vamos dançar amanhã, quando tiver mais gente aqui.” Lulu nem reagiu. Ele simplesmente continuou olhando para o dj, com o dedinho de carona um pouco mais ereto. Eu tentei de novo, dessa vez com a voz macia e falha. Ele me olhou de volta. Seus olhos estavam enormes, o suor brilhante colado na testa.

Bem nesse instante a música certa, na altura certa, ecoou dos alto-falantes. Fizemos a “Bula Dance”. Aprendemos a “Snake Dance”, onde o grupo em fila tem que repetir os movimentos do líder, até que este grite “over!”, e a cobra muda de direção,

Mal a música havia terminado, Lulu anunciou: “É isso, gente, acabou”. Todos saíram da sala em passos rápidos, de volta aos seus dormitórios, ao banheiro, ou ao deck iluminado pela luz da lua, onde a galera fumava cigarros.

Comments

1 people commented so far
  1. Made me laugh out loud…again!
    Thx

    by Sonia - Your no. 1 fan on 2010.03.03

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