Words
A cultura (ou falta dela) em Nova Zelândia
Quando a Lynn Barber, jornalista vedete do periódico inglês The Guardian anunciou aos 2 amigos kiwis que ia visitar a Nova Zelândia, a reação deles foi quase idêntica:
-A paisagem é linda, as pessoas são muito acolhedoras… você vai odiar!
Lynn diz que para amar esse país é preciso gostar muito de natureza, e não ser lá tão exigente em matéria de cultura. Que a Nova Zelândia é um paraíso terrestre em vários aspectos, um país limpo, com a terra virgem, ar imaculado, onde paisagens de tirar o fôlego se acumulam sem parar. Mas, diz Lynn, ela sempre achou que o paraíso deve ser meio tedioso, e deduz que os neozelandeses também, já que gastam toda a sua energia intelectual a inventar esportes radicais.
Ao contrário de Lynn, não sou fumante, gosto de trilhas e chego a me emocionar – ou pelo menos a me empolgar bastante – com paisagens naturais. Mas em retrocesso, me pergunto o que é que me motivou a atravessar o globo para desbravar esse país do qual eu sabia tão pouco. Minha simpatia e conhecimento da Nova Zelândia cabiam nos dedos de uma mão:
-sou doida pelo Flight of the Conchords, seriado estrelado por dois kiwis que tentam a sorte em NY e que é na minha opinião um dos seriados mais originais já feitos para a televisão;
-sei que o filme Lord of the Rings foi gravado aqui. Mas não vi o filme. Nem li o livro;
-acho que a haka, dança guerreira feita pelos “All Blacks” antes de cada partida de rugby, é um dos momentos mais interessantes, tocantes e testosterônicos que existem em se tratando de competições esportivas;
-tenho uma queda toda especial pelos anti-heróis. E algo me dizia que a psique neozelandesa tem o charme modesto dos países que carregam um complexo de inferioridade, como o Canadá, por exemplo;
-Impossível não citar os kiwis (fruta e bicho) e os esportes radicais.
É. motivos mais do que suficientes para uma visita. Mas passadas quase duas semanas, qual o veredito?
A primeira coisa que me chamou a atenção, logo ao chegar em Auckland – a maior cidade do país – foi uma espécie de silêncio. O ruído nas ruas parecia desproporcional à quantidade de gente que eu via. Na avenida mais movimentada da cidade, não notei risos, vozes que se sobressaíssem, assobios, música alta, vinda seja das lojas ou dos carros.
Nosso primeiro contato com a cultura local foi resultado de uma busca ativa: após três dias circulando em meio à massa alemã e inglesa dos albergues, resolvemos ir ao encontro semanal de Couchsurfers. Tanto para tentar descolar um sofá como para tentar chegar mais perto dos neozelandeses.
Nesse encontro, o cara mais chapado e extrovertido que eu conheci era americano. Já o mais carismático, juntando as feições e o sorriso, era Maori.
Mas foi o fofo Danny, que nasceu em Christchurch e que mora em Auckland, que acabou nos emprestando seu sofá e fazendo as vezes de anfitrião em passeiozinhos pela cidade. Apesar do seu amor pelo país, Danny nos contou que queria mesmo era morar em Los Angeles. Danny chamava a atenção pelo seu acento sutil. E isso não era um acaso: ele nos confidenciou que em suas viagens pelo mundo, ele acabou desgostando do próprio sotaque. E, determinado que só, resolveu se esforçar para falar com um sotaque mais neutro.
Mas desde que saímos de Auckland, viajando e dormindo na campervan, nosso contato tanto com outros viajantes como com os neozelandeses ficou bem reduzido. Mas parece que essa é a regra, que aqui é assim que se viaja: desbravando trilhas, explorando glaciais, visitando florestas, surfando nas praias. Viaja-se em duplas ou no máximo em pequenos grupos. Explora-se o país, a terra, e deixa-se o seu povo – e a sua cultura (ou falta dela) em último plano.
Descubro um país pouco populoso, com densidade demográfica baixa, sem nenhum prato típico, com nenhum ritmo ou hit chiclete.
Um país lindo como um top model, de olhos azuis e rosto anguloso, cuja beleza se aproxima mais de uma obra de arte do que a de um homem feito de sangue, fibra e testosterona.

Comments
I’ve often heard folks compare low-key New Zealand – living a bit in the shadow of its boisterous neighbour Australia – to the way Canadians’ unique culture sometimes feels overshadowed by the pervasive culture of our neighbours to the south.
I’ll be interested to hear what you guys think once you head over to Oz….
Since Bianca wrote this post, we found pockets overflowing with creative energy, like Wellington, and those just simmering enough to pass, like the Art Deco sanctuary of Napier. We look forward to discovering more.
muy interesante Bi!!
i love you love the haka of the rugby man, I love it too!
Il y a quelque chose d’épeurant et de beau la dedans. Like many lions.
loved all your pics.
and as always miss you two guys!
Tks Janita!
BTW we saw a haka presentation live, and it almost gave me tears. Even tough it was in a context of a packaged tour – and therefore very detached from real life – the dance itself was moving in a very irrational way to me, since I can’t see a personal connection of mine with that dance in any ways.
But I remember what you said about watching the haka on Youtube like once a month at least! I think I’m understanding why now
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