mo•jo n., 1. short for mobile journalist. 2. a flair for charm and creativity.

Words

  • by Roberto Rocha
  • published from New Zealand
  • on 2010.03.16

Rotorua: A Disneylândia Maori

rotorua 4

A funcionária do centro de informações turísticas pareceu surpresa. Surpresa que queríamos experimentar o hangi – uma refeição tradicional Maori cozida em vapor sulfurosos – em um simples restaurante.

Em outras palavras, queríamos comer sem ter que assistir ao espetáculo de dança folclórico.

-Sinto muito, você só pode comer o hangi como parte de um pacote!

Essa foi a primeira decepção da nossa estadia em Rotorua, um dos principais destinos turísticos da Nova Zelândia, parcialmente devido a uma forte presença Maori na região. Tanto os panfletos como nosso guia de viagem prometem uma autêntica experiência cultural, cheia de folclore, dança e comida.

Mas tudo vem sempre como parte de pacote comercial. E esse “autêntico” encontro cultural custa cerca de NZ$100.

Olhamos novamente os panfletos. As fotos do show de dança nos lembravam os galas do Rio de Janeiro, frequentados quase que exclusivamente por gringos, onde perpetua-se a fantasia que mulatas de plumas balançam o traseiro o ano todo no Brasil.

Essa não pode ser a única opção! Será que não tem uma feira de artesanato Maori onde é possível trocar uma idéia com os artesãos? Não podemos assistir à uma apresentação da dança de guerra haka num festival de rua? Espiar um menino Maori fazer sua primeira tatuagem?

Não. É preciso comprar o pacote.

Nosso silencioso protesto foi escolher visitar Whakarewarewa, o mais barato “vilarejo” Maori que está aberto para os turistas. Na entrada há uma bilheteria e um café. Você tem três opções: tour simples com performance cultural, tour e espiga de milho, e tour completo incluindo o hangi. Escolhemos a opção que vem com o milho e que custa NZ$30.

rotorua 1

Uma pequena ponte marca a entrada do que parece ser um vilarejo plantado num morro pontilhado de casas com antenas parabólicas. Algumas delas exibem caminhões pick-up nas garagens. Gárgulas Maoris marcam as estradas.

Cerca de 25 famílias moram neste vilarejo, onde nascentes de água geotermal fervente deixam um cheiro sulfúreo inconfundível no ar. Um guia efeminado de bigode nos conduz, contando a história do vilarejo e das tradições dos residentes.

Por exemplo: as mulheres ainda cozinham na grande piscina de água fervente. A comida é submergida na água em sacos de tecido ou de plástico e deixada lá por horas, enquanto elas trabalham em outras tarefas domésticas.

O guia conta que todos os dias, antes e depois da chegada dos turistas, os residentes enchem as piscinas de cimento com água quente para um banho coletivo. E, que assim como nós, eles tomam o banho nus.

rotorua 5
Uma residente do vilarejo cozinha milho na piscina termal.
A tour guide shows the "microwave", a box over a vent where food can be steamed instead of boiled.
O guia turístico nos mostra o “microondas”, uma caixa que aproveita o vapor termal que sai do chão para cozinhar alimentos a vapor

Eu me senti um impostor o tempo todo. O lugar era praticamente uma Disneylândia sem os brinquedos. Praticamente não vimos nenhuma família Maori que não estivesse servindo os turistas. E quando algum deles aparecia – vestido igualzinho à gente – eles eram tratados como animais de zoológico, fotografados pelos obrigatórios turistas japoneses.

Sim, nós aprendemos sobre seu estilo de vida e suas tradições. Nós entendemos sua relação com a região, uma anomalia geológica que para eles é divina. E sim, o show cultural foi maravilhoso. A música, tocante, as vozes poderosas. O haka, a dança que tradicionalmente preparava os homens para a batalhas, foi uma das mais elaboradas e pungentes demonstrações de força masculina que já vimos.

Mas nós também comemos metade de um milho por NZ$2. Em qualquer mercado, você pode comprar 4 espigas inteiras pela mesma quantia. Ou seja: pagamos um acréscimo de 800%.

E continuamos a nos perguntar: Os moradores se importam em ter seu vilarejo transformado em atração turística? Será que é humilhante ter a sua cultura empacotada em um tour? Ou será que eles se orgulham ao ver que gente do mundo inteiro paga para conhecer seus hábitos? Eles ficam felizes de não ter que trabalhar mais do que algumas poucas horas por dia, durante os horários de visita?

Na saída, notamos algumas placas que homenageiam os guias de turismo de Whakarewarewa mais famosos. Aqueles que fizeram o tour com a Príncipe de Gales, por exemplo. Aprendemos que nesse vilarejo, ser um guia é um trabalho de prestígio, e isso, desde o início do século XX.

É possível que estejamos analisando demais a situação. Mas, achamos que não.

Maori girls watch the tourists watch them.
Garotas Maori observam os turistas as observarem.

Comments

2 people commented so far
  1. Thanks for sharing… your conflicted feelings about this are familiar. The tourist “highlights” that you read about in the guidebooks almost always seem disappointingly artificial to me. Like Old Montreal – sure, it’s kinda pretty, but local Montrealers never spend any time there, it’s 95% tacky shops and overpriced restaurants catering to tourists.

    I’ve started skipping tourist sites more and more. People don’t believe me when I say that when I travel, I actually enjoy just being in a normal residential neighbourhood and going to the grocery store or local cafe, to see what people’s daily lives are like.

    by Fairfax on 2010.03.17
  2. Sort of like the favella tours in Rio and the First nations reservation tours in Canada…and I’m sure there are others! Sad…

    by Sonia on 2010.03.18

Custom Ad

Leave a comment