mo•jo n., 1. short for mobile journalist. 2. a flair for charm and creativity.

Words

  • by Bianca M. Saia
  • published from New Zealand
  • on 2010.03.21

A travessia de Tongariro

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A recomendação veio da Yvi, uma simpática suíça que conhecemos em Taupo, enquanto nos banhávamos num rio de águas termais.
-Vocês nunca ouviram falar na trilha de Tongariro? Ela é considerada a melhor trilha de um dia em toda a Nova Zelândia!

Desde a nossa chegada neste país ainda não tínhamos nos lançado em nenhuma grande aventura, dessas que exigem coragem, resistência ou estratégia. Aparentemente, a hora tinha chegado. Para ir de Mangatepopo a Ketetahi são necessárias de 7 a 8 horas de caminhada. Uma trilha de 18.5 km, que proporciona as paisagens mais panorâmicas e vistas para os vulcões mais ativos do Parque Tongariro.

Como é comum, pelo menos na Ilha Norte da Nova Zelândia, é necessário passar por uma das inúmeras agências de turismo que dão acesso ao passeio. Nesse caso, um ônibus nos levaria à base da montanha pela manhã e nos buscaria do outro lado, no fim da tarde. Um total de duas horas de ônibus, por NZ$55 dólares. Um preço que parece abusivo para um simples traslado: o passeio não necessita de guia e devemos levar toda a comida e água do dia. Mas a pressão de se fazer “a melhor trilha do país” falou mais forte. Engolimos o custo.

Por volta de 6 da manhã, já à caminho da montanha, o sol ainda não nasceu. Dentro do ônibus, entre duas colheradas de iogurte com granola, recebemos panfletos com dicas detalhadas sobre cada trecho do hiking.

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“Entre Soda Springs e a Cratera Sul há uma seção bastante íngreme chamada ‘Escadas do Diabo’. Você vai entender o porquê do nome ao chegar lá.”

Gulp.

“No topo da Cratera Vermelha: esta parte da caminhada pode ser assustadora quando o vento está forte. Você pode ser empurrado pelo vento ou ter que ficar de quatro no chão. Por favor não ande muito próximo da beira da cratera pois, se você cair, você não vai voltar.”

Duplo gulp.

“A subida do Monte Ngauruhoe é extremamente difícil e só deve ser feita por aqueles que acharam as ‘Escadas do Diabo’ fáceis, e por aqueles que não sofrem de vertigem. Ao descer coloque o peso nos calcanhares e tenha cuidado, pois se você perder o pé, você pode escorregar montanha abaixo”.

E o texto continua, cheio de negritos, palavras em caixa alta, quadros de aviso, pontos de não-retorno, caveiras, perigo, morte, não seja você também uma estatística.

De um lado do ringue, Bianca: rindo de nervoso, arregalando os olhos, com as palavras “você não vai voltar” girando na cabeça, olhando para os lados pra ver se mais alguém queria dar meia-volta e pedir reembolso.

Do outro lado, os outros turistas – ou eu deveria dizer – intrépidos exploradores, provavelmente alpinistas experientes recém-chegados do Himalaia, com a calma de quem está prestes a fazer um city-tour.

Resumindo: vini, vidi, vici. Subi as temíveis escadarias do diabo. Balancei com o vento. E descobri que o cão ladra mais forte do que morde: as paisagens mudam tanto, e tão rápido, que o tempo passa em outra velocidade. Nessa generosa trilha, a recompensa não vem só no topo, e sim a cada trecho.

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Mas o melhor conselho e aprendizado do dia veio da Yvi: para chegar ao fim da trilha, o mais importante é que cada um siga o próprio ritmo. Somos todos capazes disso, mas não podemos esquecer que somos todos diferentes: cada um com sua musculatura, peso, altura, tamanho das pernas, condicionamento físico. Não se deve ir mais rápido – e nem mais lentamente – para acompanhar o ritmo de alguém que é diferente de você. Só por medo de se sentir inferior, só para querer provar algo pra alguém.

No nosso pequeno grupo de quatro pessoas, eu era a mais lenta. A mais ofegante. E muito sujeita a querer me comparar, a não querer ficar pra trás, a me sentir inferior.


Não é a montanha a quem conquistamos, e sim a nós mesmos.
- Sir Edmund Hillary


Uma viagem ao redor do mundo te obriga constantemente a sair da sua zona de conforto. E para evoluir, é preciso encontrar as suas montanhas. Somente livre da comparação é possível saber quando é hora de forçar um pouco mais, ou escutar meu limite e parar pra recuperar o fôlego. Desejo que eu sempre pare no caminho pra admirar uma flor. Que eu tenha a humildade de pedir uma mãozinha, ou duas, ou três.

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Comments

1 people commented so far
  1. Com todas essas estripulias e caveiras rondando vcs o tempo todo, como é que um pobre pai não pode deixar de ficar preocupado!!

    by josé carlos saia on 2010.03.22

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