mo•jo n., 1. short for mobile journalist. 2. a flair for charm and creativity.

Words

  • by Roberto Rocha
  • published from New Zealand
  • on 2010.04.12

Bungy jumping em Queenstown

A.J. Hackett Nevis Highwire Bungy Jump: 134 metros
Preço: $250 NZD (converta)
Dificuldade: pra quem curte a sensação de quase-morte

É quando o funcionário amarra a corda bungy nos seus pés que você começa a entender aonde é que você foi amarrar seu burrinho.

Tínhamos acabado de assistir outras seis pessoas pularem o terceiro maior bungy comercial do mundo. E, assim como os milhares que o fizeram antes deles, eles saltaram, a corda esticou, eles quicaram, e em seguida subiram. E, ao serem trazidos de volta à plataforma, parecem atônitos e emocionados, embriagados de um estranho e caro ponche neuroquímico.

Não é nada demais, você pensa. Eu também posso fazer isso. Certamente é isso que você estava pensando ao desembolsar os absurdos $250 pelo pulo, ao embarcar no ônibus oferecido pelo empresa e rodar por 40 minutos até chegar à sede do Nevis, e ao subir no bondinho que carrega seis pessoas até plataforma, uma cabine metálica pendurada sobre um precipício e sustentada por cabos de metal.

Você já está todo afivelado. O técnico te senta numa cadeira reclinável, feito poltrona de dentista, e te conecta à a corda bungy escolhida de acordo com o seu peso.

“Esta é a corda que vai te soltar”, ele diz, e enfia uma tira vermelha dentro da cinta acolchoada que está amarrada aos seus tornozelos. “Quando você parar de quicar, puxe aqui. A corda tem a função de liberar seus pés, e você vai ser puxado de volta pra cima pelo cinto que está amarrado ao seu peito”.

Assim, você pode ser trazido de volta na posição vertical ao invés de ter que encarar as pedras que pareciam anunciar a sua morte durante a queda de 50 metros por segundo.

Bianca esperando a sua vez.

O técnico te ajuda a ficar de pé, indicando a plataforma do pulo que fica logo ao lado. Você vê o rio 134 metros abaixo, que com a distância mais parece um riacho seco. Você vê as pedrinhas e imagina que elas sejam na verdade enormes rochedos. Não há nada que te separe do chão duro e áspero.

E é nessa hora que você percebe – mesmo – aonde é que você se enfiou.

“Não…eu não consigo”, eu disse. Os inúmeros pulos feitos em perfeita segurança pelos outros turistas deixam de ter qualquer significado. O instinto básico de auto-preservação supera qualquer sofisticada e lógica racionalização.

E é exatamente por isso que o técnico fica bem atrás de você, não te dando outra escolho a não ser ir em frente.

“Ai, Jesus”, eu repetia a cada passo, invocando meu salvador, como qualquer católico de meia pataca, ou seja, quando eu estou completamente fodido. “Ai Jesus!”

“Vamos lá, cara, você consegue”, disse calmamente o técnico.

Meus dedões já estavam pra além da plataforma. Não demora nada e o técnico já está fazendo a contagem: 3! 2! 1!

Todo mundo que pulou antes de mim naquele dia, o fez no 1. Todas as vezes. Ninguém deu pra trás ou enrolou, e essa obediência me deixou pasmo. Até que a minha hora chegasse.

Na teoria da sedução, existe uma técnica apelidada “regra dos três segundos” : ao avistar uma mulher que te agrade, nunca espere mais do que três segundos para abordá-la. Mais do que isso, você começa a imaginar tudo o que poderia dar errado e seus mecanismos de defesa passam a ditar as mil razões que fazem com que chegar junto dela pareça uma péssima e patética idéia.

De pé naquela plataforma, olhando pra baixo em direção ao abismo inóspito, sentindo a garganta gelada, meus pensamentos se sobrepondo feito panquecas e minhas pernas mole feito geléia. Nada naquela hora tem o poder de te reconfortar, te encorajar. Você não tem o luxo de espantar o medo. A única coisa concreta são os números saindo sucessivamente da boca do técnico, a familiaridade da contagem regressiva funcionando como um magro fiozinho de segurança.

E você pula no 1.

No começo, o silêncio é total. Mesmo seu próprio grito parece abafado, como se ele nunca deixasse seus lábios. Um buraco negro se forma dentro do peito e você não sabe se é por conta da velocidade ou da visão do chão se aproximando estupidamente rápido da sua cara. Você sacode seus braços, como se isso pudesse te trazer qualquer estabilidade, ou melhor ainda, amortecer a queda.

Para algumas pessoas a queda parece durar mais do que os prometidos 8.3 segundos. Para mim, foi muito menos do que isso. Quando eu senti o tranco na minha canela e avistei as pedras abaixo mudaram de direção, nem mesmo um segundo havia passado.

Eu puxei a corda que serve pra te colocar novamente em posição vertical, mas foi inútil. Eu tentei seis vezes. A outra corda que desce da plataforma e que te traz de volta pra cima estava se aproximando de mim, e rápido. Normalmente você deve estar de pé durante a subida, mas no meu caso eu subi de cabeça pra baixo mesmo.

Eu comecei a entrar em pânico por causa disso também. Mas eu me lembrei que havia acabado de desobedecer meu instinto mais básico ao pular voluntariamente da plataforma. Resolvi ser rebelde uma segunda vez: soltei meus braços, relaxei meu abdômen, e deixei as cordas e os técnicos fazerem seu trabalho.

E como no pulo, o pânico falou primeiro e coube a mim jogá-lo de lado por um instante para dar o pulo. Como em cada importante decisão que eu já tomei antes, fui confrontado com os piores cenários possíveis mas ainda assim saltei no vazio.

Enquanto eu era gentilmente trazido de volta à cabine trêmula, o técnico indagou: “e aí, como foi”? E eu me perguntando se ele poderia entender, ou se ele se importa. Como explicar o que eu senti? Para ele, cada pulo e cada reação é uma peça de linha de montagem, talvez diferente na cor ou formato, mas essencialmente a mesma peça. Esses caras são profissionais. Eles são técnicos de bungy.

E pra eles, eu estava apenas morrendo de medo.

Comments

5 people commented so far
  1. Well done Roberto, I remember doing this jump myself some years ago… a big challenge for myself.

    I remember the gondola over to the cable car, that was a pretty scary start!!

    Congrats, great write up too.

    Paul @
    TravMonkey.com

    by TravMonkey on 2010.04.13
  2. FELICIDADES! I salut you and Bianca for your bravery to do the jump. My favourite piece of your blog so far, your writing style is brilliant and it brings me to the point which makes me scream with you into the “dark hole” when it comes to the part you did the big leap.

    Keep the wonderful stories coming. Can’t wait to read your next piece :-)

    MISS U!!!!

    by Adelina on 2010.04.13
  3. Thanks, Paul. It’s incredible just how quickly you shift form excited to terrified before the jump.

    Adelina: your comments always make me smile. You encourage me something fierce. Thanks!

    by Roberto Rocha on 2010.04.13
  4. OMG, my hands got sweaty just reading this piece. As usual, your excellent writing made me feel like I was there next to you…well OK, maybe not right beside you but at the back of the cabin watching you!! Congrats to you and Bianca!
    P.S. laughed at the inclusion of the link used to calculate the rate of the fall!!

    by Sonia on 2010.04.15
  5. Whoa!
    Fabulous description: now I know for sure that I don’t want to do that.
    Skydiving also opens up that “black hole” in your chest but isn’t as terrifying and you do get to enjoy the scenery.

    Very much enjoying your journey.

    Best

    by Lynn on 2010.04.16

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