Words
De volta à infância em Fraser Island
“Safari” em Fraser Island
Custo: A partir de $230
Dificuldade: Equivalente a um passeio de escola da 5a. série
Quando disciplinar as crianças começa a dar trabalho demais, os pais cansados recorrem ao velho hábito de assustarem seus filhos com mentirinhas fantásticas.
No Brasil, por exemplo, qualquer criança sabe que brincadeiras com fogo resultam em xixi na cama. Ou que criança que não escova os dentes antes de dormir arrisca acordar com uma barata lambendo sua boca (né, sogrinha?)
Sem esquecer a maior mentira de todas, comum à inúmeras culturas e tão ridícula que a sua perpetuação é um milagre: a de que um homem velho e gordo, que mora no Pólo Norte, está monitorando o comportamento de cada criança, recompensando aquelas que foram bem comportadas com presentes no fim do ano.
Para as crianças e suas mentes literais, essas absurdas mentiras provam-se incrivelmente eficazes, para a alegria dos pais e educadores.
Os operadores de turismo em Fraser Island conseguiram adaptar o sistema infantil com uma eficiência matadora, mesmo em adultos.
O método é simples: junte um grupo de oito jovens de vinte e poucos anos em busca de aventuras e mande-os para uma imensa ilha na costa de Queensland, a bordo de um caro jeep 4×4. Deixe o grupo sozinho por três dias. Mas antes, encha as suas cabeças com tantos perigos e ameaças que ninguém vai nem sonhar em tentar se divertir por conta própria.
As regras do jogo
Um dia antes da viagem, você é obrigado a assistir um vídeo de uma hora que te alerta sobre os imensos perigos da condução na areia. Os mesmos perigos e alertas são repetidos em viva voz pela funcionária do albergue que organiza o passeio.
Um exemplo: se você dirigir próximo ao mar, a água salgada vai enferrujar a carroceira. Resultado: multa, de no mínimo $200, a ser dividida entre todos os passageiros.
Ou essa: se você fizer uma virada brusca na areia, o jeep vai capotar e todos os passageiros vão sofrer ferimentos graves.
Finalmente, o responsável pelo carro, após fazer um check-list dos equipamentos a bordo, completa a sessão terror com com recortes de jornais mostrando motorista inconsoláveis frente à morte dos seus companheiros de viagem.
Os grupos, de oito pessoas, são formados levando-se em conta não a sua possível compatibilidade, e sim de forma que cada time tenha motoristas qualificados em número suficiente. O que aumenta exponencialmente a chance de você cair num grupo onde uma ou mais pessoas sejam do tipo controladoras e caretas, eliminando qualquer possibilidade do grupo curtir momentos de descoberta e real aventura (valeu, Lucy).
A viagem
Uma pequena balsa leva os carros e os passageiros da terra firme à ilha. Apesar da sua superfície ser toda em areia, o que qualifica Fraser Island como a maior ilha de areia do mundo, do seu solo brotou milagrosamente uma frondosa floresta tropical. Quando a maré está alta, impedindo a passagem do jeep com segurança pela areia, você utiliza as estradas de terra (de areia, na verdade), no meio da ilha. Também conhecido como “máquina de lavar”, o truculento passeio não é recomendado a turistas de ressaca.
Os viajantes levam consigo um itinerário detalhado, onde tudo é definido de antemão. Chegue ao lago às 14 horas. Saia às 15h30. Chegada no camping às 17h30.
Essas regras existem por uma boa causa: é necessário conhecer o horário de subida e descida das marés, que mudam diariamente as condições da “estrada”. Mas como é de praxe infantilizar os visitantes ao máximo, a exploração responsável e independente do local é estritamente proibida. E quem ousar sair do itinerário corre o risco de ser multado.
Apesar do regime militar, enforçado pelo déspota auto-eleito do grupo (ainda aí, Lucy?), a viagem é deliciosa. Dirigir na areia é emocionante e delicioso. Nas partes mais macias, o jeep derrapa para os lados, assustando motoristas e passageiros. As passagens de água doce para o mar provocam espirros espetaculares, se a o trajeto for feito com jeito.
Fraser Island têm vários lagos de água doce. Alguns têm água turquesa e areia incrivelmente branca, que de tão pura, pode ser usada para exfoliar a pele e polir os dentes. Outras, de água verde escura, próximas as dunas de areia dourada, nos fazem lembrar a costa do Rio Grande do Norte.
Caindo na real
Já no segundo dia na ilha a maioria dos participantes se toca que dirigir na areia, se feito de maneira responsável, não é assim tão perigoso, e que não, os dingoes, espécie de cães selvagem que povoam a ilha, não estão a fim de te comer vivo.
Com um pouco de raciocínio, você percebe que não é possível escapar da água salgada ao dirigir na areia dura e molhada (que segundo os operadores, é melhor por oferecer mais tração).
Você também aprende que ao correr em disparada pelas dunas macias ao redor do Lago Wabee, o risco de você quebrar a espinha e sofrer com a invalidez até o fim dos seus dias é desprezível. Ou que o mar violento não vai te arrastar até as suas profundezas se você simplesmente caminhar com a água na altura do joelho.
E eu nunca ouvi falar de alguém que tenha sofrido uma parada cardio-respiratória ao ser queimado por uma água-via.
Mas ninguém quer arriscar.



Comments
Santa doesn’t exist?
Always a plesure to read you!
Always nice seeing you here, Mia.
so fun to read you.
be careful of everything…just in case…please
jijiji
Love the article. I remember the hour long briefing session before heading off to Fraser. I was the only who put their hand up, when asked “who’s going to go in the sea?” Got a interesting response, decided not to go for a swim in the end. I guess these companies are trying their best to cover their asses from law suits.
I agree the schedule really does kill off any chance of seeing anything else other than whats on the schedule. I remember suggesting a change to the schedule, group didn’t want any of it.
Driving, did not of it. Was quite happy not to. Meant I could enjoy a beer when I wanted to. We got bogged down only a couple of times and not once on 75 mile beach. I’m sure these companies shoot themselves in the font with the prospects of fines for getting salt water on the car and causing rusting. People become afraid of the sea and make sharp turns to avoid 1 drop of sea water getting on their vehicle.
Personally I prefer to play by the rules regarding safety. My group saw 1 vehicle overturned literally right at the beginning of our adventure. We had been off the ferry for probably 10 minutes or so. I wouldn’t like to think what kind of fraser island experience they had.
Anyhow, great read, going to bookmark. Sorry for the rambling statement
Not rambling at all, Dan. You shared some great insight. I guess it’s important to put the tour into perspective. A lot of the participants are young, inexperienced drivers. Me, I’m 30 and past my reckless days, so it felt more condescending.
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