Words
Os Brancos, os Negros
Ao chegar em Papua Nova Guiné, pela primeira vez eu tomei consciência plena da minha cor, da minha raça. Hoje, sou branca numa terra de negros. Sou relativamente rica numa terra humilde e tecnologicamente carente. Sou diferente, misteriosa e exótica, e carrego à contragosto uma aura cheia de implicações políticas, sociais e econômicas.
Não, não sou a única: principalmente na capital, Port Moresby, há uma comunidade crescente de expatriados brancos, em sua maioria australianos. Eles vêm chefiar, gerenciar e tentar botar uma ordem ocidental nas companhias que empregam os negros. Mas eles, os brancos, só andam de carro, e moram em prédios junto aos outros brancos, verdadeiras fortalezas protegidas por arames farpados, cercas elétricas, cães de guarda e seguranças particulares.
Enquanto isso, eu o Beto caminhamos a pé, subimos as ladeiras, compramos laranjas no Mercado Central. Como os negros. Mas ao ser dispensada do detector de metais na entrada do banco e da revista na bolsa ao sair do supermercado, ao não precisar apresentar o cartão de embarque ao ingressar no aeroporto como todos os outros, ao ser olhada com curiosidade por onde passo, sou lembrada e relembrada da minha diferença.
Em Mt. Hagen e nas regiões rurais e mais remotas do país, não somos apenas diferentes. É triste e espantoso, mas aqui, para eles, somos superiores. Para eles, nós, os brancos, usamos a sabedoria que Deus nos deu de forma exemplar, construindo estradas e arranha-céus, morando em casas equipadas com fogão elétrico, banheiros e energia elétrica. Temos a pele e os cabelos macios e jovens, poupados do sol, da chuva e do trabalho duro nas lavouras.
Feito artistas de Hollywood, atraímos uma atenção – e ouso dizer, admiração – desmesurada, que a gente nem sabe onde enfiar. Primeiro, vêm os adultos, um a um apertar as nossas mãos. “Apinum”! “Boa tarde”! Seguem as crianças, formando um semi-círculo de olhinhos curiosos e encabulados na nossa frente, a nos olhar sem parar. Tímidas, nao respondem às nossas perguntas. Mas adoram posar pra fotos, caindo em uma sonora gargalhada coletiva ao ver o resultado na nossa câmera ou quando tentamos dizer uma ou duas frases na sua língua. Elas nos seguem em bandos, às vezes por mais de um quilômetro. Mas se afastam, feito bichinhos assustados, se a gente estourar a bolha imaginária ao nosso redor.
Em poucos minutos nos sentimos impotentes e desajeitados diante de tantos espectadores, a nos encarar e a nos sorrir sem descanso. E, sem querer, estamos criando história: nos contaram que à noite, cada uma dessas crianças, jovens e velhos ao chegar em casa vai contar à família: “Hoje eu cumprimentei um homem branco!”.
Seu olhar carece de nuances: o homem branco é associado ao bom, ao bem. Associado à educação, ao progresso, às estradas, ao dinheiro, e até mesmo à limpeza e à beleza. Eles projetam em nós, os brancos, as carências de tudo o que aqui falta. E aqui, falta muita coisa: luz elétrica, educação para cerca de ¾ da populaçãp, estradas, saúde, cama, sabão.
Ao nos ver, eles parecem esquecer que somos nós, os brancos, que invadimos sua terra e forçamos goela abaixo deles, os negros, uma religião e cultura que não lhes pertence. Que somos nós os ladrões dos seus recursos naturais, perpetuando a sua injusta pobreza. E que somos os grandes responsáveis pela morte lenta da Terra que dá à nós, os brancos, e a eles, os negros, a vida.


Comments
Bianca e Beto, estou impressionado com o que vcs relataram. Fiz uma retrospectiva (rápida…) em alguns momentos da vida e vi o quanto somos egoístas, reclamamos por tudo e com todos. Imagino o conforto no coração de vcs após essa experiência. Estou acompanhando a viagem de vcs (via mochileiros.com), e vcs hoje são “culpados” dos meus planos para 2014 (RTW) rs!. Com toda certeza esse lugar será colocado em meu roteiro. Que Deus abençoe vcs e sucesso ao longo dessa estrada…!!!
Júnior, são mensagens como a sua que fazem nosso trabalho valer a pena. Quem bom que a gente pôde te inspirar! Aproveite também os preparativos, porque sonhar é bom demais e planejar é parte da viagem.
Você faz bem de incluir PNG. Ter estado por lá coloca muita coisa em perspectiva, mesmo. É um choque pros sentidos e diferente de qualquer coisa remotamente familiar. Um grande abraço.
Olha meus queridos, se essas vossas experiências, transformadas em relatos, não tiverem sentido de continuidade – aproveitando esse material – seja para um livro, roteiro para um filme e etc….. vcs estarão perdendo a oportunidade de toda uma vida.
Leio e releio cada relato e aproveito pra me transportar em vossas vivências.
Beijokas
Custom Ad
Leave a comment