Words
Uma terra onde “tudo pode acontecer”
“Expect the unexpected”. Espere pelo inesperado foi o cumprimento e o aviso dado pela calorosa e corpulenta agente federal ao emitir nosso visto, no Aeroporto Internacional de Port Moresby, em Papua Nova Guiné. Os murais pintados a mão acolhem os recém-chegados na fila da imigração e retratam uma ínfima parcela dos seus tantos rostos, decorados com as cores e as penas de passaros exóticos.
Estamos entrando no país das mil culturas, que conta com mais de 800 línguas conhecidas e que é descrito pelos locais e estrangeiros como a terra onde tudo pode acontecer, onde uma surpresa te aguarda em cada esquina. Que passou da Idade da Pedra à era moderna apenas nos últimos 50 ou 100 anos. E aonde é preciso tomar cuidado: “be careful, be safe”, escutamos diariamente.
Aqui, não se caminha sozinho à noite. Não se vai a lugar algum sem obter informação com alguém local se é seguro. Deve-se evitar tomar táxis e ônibus. Não se carrega nada que você não esteja disposto a perder. Mas onde não se deve esquecer de levar algum dinheiro no bolso, para nao aborrecer os eventuais ladrões.
Ou pelo menos esses foram os conselhos dados pelo nosso anfitrião por e-mail, um couchsurfer australiano que ainda nem conhecemos. Mas que fez questão de vir nos buscar no aeroporto, e isso, numa segunda-feira às 8h30 da manhã. E que nos conduziu, em alta velocidade e com os vidros fechados até o seu apartamento, trancado por duas portas.
Não faltam razões para que o país seja considerado como “a última fronteira do turismo”. Aqui, viajar é caro: a indústria hoteleira precisa cobrar preços altos para justificar a quantidade baixa de hospédes. Os albergues praticamente não existem. Ainda nao há estradas ligando as províncias e as principais capitais: qualquer viagem de longa distância é preciso ser feita de avião. Nas regiões mais remotas o turista precisa caminhar com um guia, já que a maior parte da terra pertence ao povo e às tribos. Sem querer, você pode fazer um inimigo caminhando no quintal de alguém sem ter sido convidado.
Mas nós não fazemos parte dessa elite que desembolsa milhares de dólares para passar uma semana curtindo mergulho, surf e dormindo nos caríssimos resorts em terras exóticas. Somos mochileiros, e isso implica caminhar a pé, comer com os locais, se possível ser hospedado na casa de um deles, frequentar seus mercados, parques, igrejas, festas, cultos. E, claro, gastar pouco, o menos possível.
Se o turista rico e branco em PNG já é considerado bicho raro, nós, os mochileiros, somos bichos extintos. Ou melhor, nós ainda nem nascemos. Ao comprar uma passagem de avião da capital para o interior do país, a agente de turismo nos perguntou se éramos cientistas ou antropólogos. “Não, estamos aqui a passeio”. Ao ouvir isso, ela virou os olhos e sacudiu a cabeca. O que ela quis dizer com isso? Ainda não tenho certeza.
Estamos a 2 horas de avião da Austrália. Enquanto lá éramos apenas mais 2 pessoas entre as milhares a fazerem o mesmo trajeto dia após dia, aqui somos únicos. Somos pioneiros, somos bem-vindos, e recebidos pelos locais com um misto de espanto e alegria, de incredulidade e orgulho.

Comments
Bi,
:):):):):):):):):):):):):):):):
De toda a sua narrativa, aquilo que eu mais gostei – e que me tranqüilizou, um pouco – foi escrito lá no finalzinho da matéria: “Somos pioneiros, somos bem-vindos, e recebidos pelos locais com um misto de espanto e alegria, de incredulidade e orgulho.” Não fosse por isso eu já tava pegando um voo pra ir praí.
Beijokas do papi
Papi, a resposta tá vindo um pouco tarde, mas felizmente tudo ocorreu super bem. Fomos mais do que bem tratados e não sentimos sinais de perigo em tempo algum. O pior que a gente viu foram brigas na rua. Valeu! Mas daqui pra frente, estaremos em países super seguros, para a tranquilidade de todos. Podem respirar
Custom Ad
Leave a comment