Words
Capotamos?!
A estrada já havia deixado de ser estrada faz tempo. Hoje, digamos que ela deve parecer com Marte após um bombardeio. Mesmo quando a estrada ainda era estrada, ela provavelmente não era digna do substantivo. É como se as autoridades locais tivessem cortado uma faixa de mato e jogado uma porção de pedras por cima, para declarar em seguida: “Tó. Agora se virem”.
Os buracos originais foram alargados ainda mais pela chuva daquela manhã, e pelo jeito eles poderiam, em teoria, servir como um pequeno reservatório de água para os vilarejos vizinhos.
Não é a toa que a única concessionária de Mount Hagen, capital da província de West Highland em Papua Nova Guiné, vende apenas um produto: jeeps Land Cruiser da Toyota, com tração nas quatro rodas.
Estávamos voltando à Hagen após uma trilha de dois dias ao Mt. Giliwe, a segunda maior montanha do país. Estávamos cansados após a caminhada de oito horas, molhados de chuva, e ainda um pouco fragilizados após o camping improvisado na floresta densa.
Tanto nosso carro como nosso guia-motorista estavam encarando o terreno de maneira formidável. Além de nós, o jeep transportava seus filhos, mulher e sobrinhos – que subiram a montanha com a gente, e que não falam inglês fluente – mas que estavam ouvindo Abba e cantando junto, a plenos pulmões, com espantosa precisão. Cada vez que a gente passava por um buraco, nossos órgãos internos jogavam uma rodada de “dança das cadeiras”.
Mas um dos buracos foi a gota d’água, até mesmo para aquela quase invencível máquina japonesa. O lado direito da estrada tornou-se repentinamente bem mais alto do que o lado esquerdo. E, enquanto ouvíamos dos alto-falantes que ” money must be funny in a rich man’s world”, a gente sentiu o carro inclinar de maneira assustadora e horizontal para o lado esquerdo.
Todos nós já vimos imagens de carros capotando na estrada. Eu sempre me perguntei como deve ser sair de dentro de um carro que está de cabeça pra baixo. Será que a gente sai pela janela? Pela porta de trás? Será que o cinto de segurança funcionaria bem demais, impedindo minha saída?
Enquanto isso a Bia, que estava sentada entre mim e o motorista no banco da frente, gritou, ao perceber que o carro já tinha inclinado demais pra poder voltar atrás. Ele parecia prester a capotar. Mas eu estava meio que empolgado, apertando com força aquela barra plástica no teto (vulgo puta-que-pariu), apertado pelo corpo dela.
Mas aí, o carro parou. Ele assentou num perfeito ângulo de 45 graus frente ao horizonte imaginário. Temendo que o carro estivesse apenas fazendo uma pausa antes de completar o capote, eu abri a porta e saí, levando a Bia comigo.
Foi uma cena memorável. A grande besta bege japonesa, dura na queda e pau pra toda obra, agora com duas rodas soltinhas no ar. Os outros passageiros escaparam pela porta traseira. Em alguns instantes estávamos cercados de gente que saiu de suas cabanas para ajudar.
Foi como ficção científica. Um evento desencadeia uma reação precisa ao seu redor que parece bizarra para o observador, mas que é totalmente banal para quem faz parte daquele meio. Um a um, um moradores do vilarejo se alinharam de um lado do carro e começaram a empurrar, num esforço coletivo que parecia ao mesmo tempo natural e praticado, como carregar uma mesa.
Nem um minuto havia passado desde que a gente escapou do jeep, e lá estava ele, de volta à estrada, sentado bonitinho sobre as suas quatro rodas, pra além do buracão.
Após agradecer os sorridentes ajudantes, entramos de volta no carro pra seguir viagem. O cd player agora tocava “The Winner Takes It All”, e as crianças cantavam junto, animadas e sincronizadas.

Comments
Pô Beto, os caras aí dando a maior força pra acertar o ‘possante japonês’ e vc aí bem de boa tirando foto :
One of your best-written stories to date! Keep them coming.
Custom Ad
Leave a comment