mo•jo n., 1. short for mobile journalist. 2. a flair for charm and creativity.

Words

  • by Roberto Rocha
  • published from Papua New Guinea
  • on 2010.06.24

Uma noite no vilarejo

Uma multidão de crianças do vilarejo veio nos escoltar do carro até a cabana de palha. A notícia havia espalhado: dois turistas brancos iriam passar a noite na sua comunidade.

A título de comparação, é como se você ficasse sabendo que seus vizinhos vão receber a visita da Madonna pra um aperitivo no fim da tarde.

Já era noite, e fomos conduzidos pela lanterna das crianças para uma cabana de dois andares. Alguém as dispensou usando uma vara de madeira, como quem afasta moscas. Apenas o brilho fraco da lâmpada de querosene acesa no andar superior nos servia de guia.

Recebemos os cumprimentos de quatro pessoas que nos aguardavam no andar de cima. Elas estavam sentadas ao redor de um buraco de fogueira, no quarto escuro e de ar espesso por conta da fumaça. Uma enorme panela de alumínio havia sido colocada numa caixa de metal, o duo sendo aquecido sobre o fogo.

A família era só sorrisos. Como a grande maioria dos residentes das zonas rurais, eles se sentiam intimidados e maravilhados pela presença dos turistas brancos que decidiram visitar seu vilarejo aos invés de ficarem trancados em hotéis chiques da capital.

Mais tarde, descobrimos que essa era a primeira vez que um visitante estrangeiro havia passadao a noite na região.

O jantar

Pundu, dono da casa, foi o nosso anfitrião. Ele é irmão de Wako Napasu, dono da jovem agência de turismo Country Tours, que organizou nossos passeios. A esposa de Pundu manteve-se ocupada alimentando o fogo, assoprando através de um longo tubo de metal. A fumaça que antes enchia o quarto começava a sair lentamente através do teto de palha.

Um ou outro vizinho ofereceu visita, tanto para olhar para os turistas como pra praticar inglês. De onde vocês vêm? O que vocês comem no seu país? Qanto tempo vocês vão passar em PNG? Eles nos entendiam, mas para questões mais complexas a gente usava um dos presentes (o que sabia mais inglês) como tradutor.

(Apesar do inglês ser a língua oficial do país para a mídia, a política e os negócios, essa é a língua que se aprende na escola, e não em casa. E num país onde toda a educação é paga, apenas 25% da população teve a chance de ser alfabetizada e aprender inglês).

Quando a comida ficou pronta, cada um de nós recebeu uma tigela funda com meio frango, um brócolis quase inteiro e folhas de samambaia (comestíveis) cozidas. Eu e a Bia avisamos que a gente não ia conseguir comer tudo aquilo, mas eles insistiram, dizendo que a gente podia deixar no prato qualquer resto que a gente não comesse.

Todos comeram com as mão. Os ossos foram jogados no buraco do fogo, que serviu como um lixo temporário.

A gente havia passado o dia fazendo trilha na densa floresta do Mt. Giliwe, e como resultado, nossos tênis estavam encharcados de chuva e lama. E enquanto a gente comia, a esposa de Pundu trabalhava para secar nossos sapatos, girando eles sistematicamente como salsichas na churrasqueira. Até mesmo as nossas meias imundas e molhadas receberam sua dedicada atenção. Meias que mesmo eu teria nojo de tocar.

E como previsto, a gente deixou muita comida no prato. Os restos foram alegremente devorados pelos presentes, que não viram nenhum problema em comer minha coxa de frango inacabada.

png highland village
A mulher de Pundu assa batatas-doces para o café-da-manhã

Hora de dormir

Nossos corpos, sujos e cansados pela longa trilha dos últimos dois dias, precisavam urgentemente de um banho. Atividade que naquela casa rústica era feita no quintal, em cima de um tapete plástico. Um balde de água quente e uma bacia metálica fizeram as vezes de chuveiro. Naquela noite sem lua, nos lavamos no escuro.

Fomos instalados num quarto construído atrás de uma divisão mal-ajambrada, no mesmo andar que servia como sala e cozinha. A porta, curta, foi construída com velhas pranchas de madeira, deixando um vão entre ela e o teto.

Nossa cama estava no chão, e foi feita com uma série de colchonetes empilhados cobertos com uma manta peluda e um edredon. Mais tarde, nós notamos que nossos travesseiros foram feitos de roupas empilhadas embaixo do grosso cobertor peludo.

Todo os outros dormiram em um colchãozinho fino como um queijo quente ou numa esteira de palha. Nossa cama, nem de perto luxuosa, era sem dúvida a mais confortável da casa.

Adormecemos escutando uma conversa em kagul, a língua local, inebriados pela fumaça ainda exalada pelo fogo dormente. No dia seguinte, batatas doces assadas nos aguardavam pro café-da-manhã.

O presente

Na cultura melanésia, ter convidados é uma honra. Mas a palavra hospitalidade não descreve a intensidade de carinho e atenção que recebemos de toda a família. Pouco antes de ir embora, estávamos prestes a dizer o quanto a experiência havia sido marcante, em tantos aspectos.

Mas a cunhada de Pundu, Korol, falou antes. Ela estendeu uma bolsa feita à mão para a Bianca. Densa e ricamente bordada em dois tons de verde, trabalho pra mais de um mês mesmo naquelas mãos experientes.

“Infelizemente não tenho mais nada do que essa bolsa pra te oferecer. Leve esse presente, como prova da nossa alegia e do privilégio de ter tido vocês dois como hóspedes no nosso lar.”

Saímos daquela casa tendo recebido mais do que a gente pode carregar. Sentindo que nossa lógica havia sido distorcida. O mundo das obrigatórias garrafas de vinho ou flores oferecidas a um anfitrião já não passava de uma lembrança vaga e distante.

Comments

3 people commented so far
  1. Valorizar a vida como ela é !!! Excelente lição para a nossa sociedade cheia de coisas vãs. A cada relato de vcs, aumenta a minha expectativa por uma experiência similar. Adorei a sua frase final: “O mundo das obrigatórias garrafas de vinho ou flores oferecidas a um anfitrião já não passava de uma lembrança vaga e distante.” Sigam em frente queridos. Que Deus os abençoe sempre…Sucesso!!!

    by Junior Gomes on 2010.06.24
  2. Hey! that’s a nice “coachsurfers“ experience.
    Que seria la vida sin compartir lo que tenemos, poco o mucho?
    los extranio mucho, mucho!

    by JaNa on 2010.06.28
  3. Olha Beto, não sei bem dizer se o seu relato é mais chocante, fascinante ou enebriante.

    Caramba…. que mundo o nosso! Quanto se tem pra ver e conhecer debaixo do firmamento.

    Beijos pra vcs

    by josé carlos saia on 2010.07.06

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