mo•jo n., 1. short for mobile journalist. 2. a flair for charm and creativity.

Words

  • by Bianca M. Saia
  • published from Indonesia
  • on 2010.08.04

Trem da alegria

É gozado como as experiências mais irritantes dentro do seu próprio país se tornam automaticamente folclóricas e exóticas em terras distantes.

Acho que pouco brasileiro  em sã consciência, tendo a escolha entre tomar um táxi com ar-condicionado ou um ônibus quente e cheio de vendedores ambulantes – se o preço fosse o mesmo – ficaria com a segunda opção. Incluindo eu. Mas, longe de casa, a experiência povão e gloriosa. É entretenimento puro e gratuito.

Ao tomar um trem em Java, você tem três escolhas: carro primeira classe, com lugar marcado e ar-condicionado. Trem executivo, também com assento marcado mas sem ar. E trem econômico, incrivelmente barato, lotado, e cheio de calor humano.

Eu já tinha viajado de executivo uma vez: a viagem de 3 horas foi confortável, sem sobressaltos. Os assentos são largos e altos, e dá ate pra alugar uma almofada se você quiser. Ninguém te incomoda: é hora de botar em dia a leitura, a escrita (já que viagem de trem não provoca enjôos) ou relaxar com um pouco de música. No meu trem havia espaço de sobra, e partimos e chegamos na hora marcada.

Uma experiência totalmente esquecível.

Agora, a viagem entre Probolinggo e Solo na econômica, que durou 10 horas, essa sim foi memorável. E por menos de 4 dólares , eu fui feliz.

Como não há lugar marcado, não haviam assentos disponíveis para todos os passageiros que embarcaram. Pânico: a viagem, repito, era de 10 horas. Mas o povo, vendo minha reação, não tardou a me tranquilizar: na próxima grande parada, desceria muita gente, e teria lugar de sobra. Bom, pensei comigo mesma: uma hora de pé não vai me matar.

Quando eu já estava me conformando, um bando de meninos se ofereceu para se espremer e colocar três pessoas onde só caberiam duas. E não pense que é porque sou mulher: a oferta foi estendida pelos meninos do banco da frente a meu colega holandês , um barbado de quase 1,90 de altura.

Com eles, conversamos sobre cultura, culinária e língua Javanesa. Descobri que meu colega de assento, um inquieto menino de 20 anos, foi representante estudantil desses comitês tipo ONU Jr. Recebi dicas preciosas. E quando eu me mostrei curiosa sobre a mercadoria de um vendedor, eles prontamente compraram uma caixa pra dividir comigo: uma espécie de biscoito doce, parecido com um torrone, feito de mandioca fermentada. Parece horrível, mas eu adorei, e talvez nunca teria me arriscado a comprar sozinha.

Bem divertida é a parada musical. Em sua maioria, solos ou duos de rapazes cantando e tocando violão, para receber em seguida uns trocados dos passageiros. Mas as variações são infinitas. Vi gente tocando violão que parecia de brinquedo, mais desafinado que moleque na puberdade. Vi um menino que não devia ter mais do que três anos, cantando sozinho e descalço,  arrancando olhares enternecidos da multidão. Vi senhoras sem aptidão musical alguma, cantando porque acho que cantar é a única coisa que elas tem pra oferecer. E vi grupos talentosos, com cantores profissa e percussão, bons de verdade, um prazer de se ouvir.

Numa viagem assim é impossível ficar com fome, já que poucos são os instantes onde não há um vendedor de comida vindo ou voltando no corredor. Sopa de almôndegas (Bakso). Arroz frito em folha de bananeira (nasi goreng). Frutas cortadinhas e embaladas. Biscoitos, guloseimas, salgadinhos, amendoins, refrescos, chá e café quente, torresmos, cigarros, entre vários outros produtos não identificados (por mim).

Ha também pequenas curiosidades, como os varredores: como o povo come adoidado e não há lixo por perto, tudo quando é embalagem pacote e bituca, quando não é arremessado pela janela, vai direto pro chão. Dá pra imaginar a bagunça. Mas seus problemas acabaram: volta e meia tem um varredor, que junta tudo e coloca o monte de lixo num canto. Pra em seguida, um outro varredor descamisar um santo e cobrir outro, empurrando o monte pra mais além. Ah, sim: eles não trabalham de graça, e estendem os copinhos de contribuição aos passageiros. Tem também o espirrador de Bom Ar, tentando deixar o ar mais cheiroso e ganhando uns trocados por isso.

O dia vai passando, o trem vai esvaziando e o povo vai relaxando. O banco da sua frente vira apoio pros pés. Um passeio pra esticar as pernas nos corredores proporciona novos encontros e novas amizades com a galera do vagão vizinho. Recebi convite pra ficar em casa de família. Rachei um saco de amendoins, daqueles de casca, com o casal ao lado. Ganhei ajuda de um professor de inglês, que me ajudou a decifrar o conteúdo de misteriosas mensagens de texto (escritas em miguxês indonesiano) que chegavam sem parar no meu celular.

E me emocionei vendo o menino do banco da frente, vestido de maneira humilde e aparentando não mais do que vinte anos, dividindo seu pequeno assento com o holandês, compartilhando seus poucos trocados com cada músico, cada pregador religioso , cada pedinte, cada varredor de aluguel.

Fique aqui com uma seleção de alguns desses trabalhadores criativos e incansáveis e seus produtos maravilhosos. Clique na seta à direita, na parte de baixo da foto, para avançar.

Comments

2 people commented so far
  1. Alegria mesmo é ler os seus textos, me transporto, viro passageira junto com vocë, posso ver as cores, sentir os cheiros e gostos, levada pelas suas palavras. Sou sua fan!

    by Eliana on 2010.08.04
  2. Impossível nao rir e se emocionar com uma narrativa dessas!
    Adorei cada linha…. super-interessante. Cheguei a me ver nesse trem.

    by jose carlos saiass on 2010.08.08

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