mo•jo n., 1. short for mobile journalist. 2. a flair for charm and creativity.

Words

  • by Bianca M. Saia
  • published from Indonesia
  • on 2010.08.20

Trocando experiências pelos cartões postais



Minha hora chegou. Aquela hora em que a idéia de visitar templos, palácios e museus de pequeno ou médio calibre começam a dar uma certa preguiça. Acumulei um sem-número de experiências talvez belas, mas pouco significativas, que acabam se amontoando na cabeça como uma baguncinha dentro de uma gaveta. Já tenho mais fotos estilo cartão-postal que loja de souvenir.

Como manter a energia e o interesse frescos nos seus arredores, 6 meses de estrada depois?

Resolvi me armar de duas estratégias.

a) Me hospedar na casa de locais (a.k.a. couchsurfing),

a) Eliminar os “checklists” dentro dos meus destinos,

b) Não planejar a data de saída desses destinos.

Fique aqui com os resultados.

Makassar, Sulawesi

Mayke

Não planejávamos passar mais do que duas noites nessa típica cidade grande asiática, superpopulosa, poluída e caótica, nosso porto de entrada na ilha de Sulawesi. O que teria sido um grande erro: teríamos assistido o terceiro jogo do Brasil na Copa num bar ou saguão de hotel. Mas ao invés disso, nossa anfitriã, Mayke, que não está nem aí pra futebol, teve a delicadeza de organizar uma festinha com a família na casa dela, para o nosso prazer. O jogo foi fraco, mas rolou petiscos, cerveja e papos bacanas com a família dela até de madrugada. Mayke estava de férias e foi uma companheira sem igual. Ela nos mostrou a beleza pouco acessível da sua cidade, e forneceu insights bem interessantes sobre a cultura do país.

Solo, Java

Nina

Vestir a camisa da empresa. Preencher auto-avaliações de perfil e
 performance. Usar de proatividade na criação de projetos que promovem 
um novo paradigma na inserção da empresa no novo século. E, claro, 
fingir que estou ocupada.
Esse dialeto pra mim já e língua morta. Mas para milhões de
 trabalhadores no mundo todo, ele ainda está bem vivo. E eu pude
 conferir isso de perto em uma reunião de funcionários da Gramedia, uma 
livraria indonesiana que tem várias filiais no pais. Meu coração não é 
de pedra, e tive pena dos cerca de 40 funcionários, num belo
 sábado de manha, verem-se obrigados a fazer uma oração, ouvir um 
sermão sobre globalização e cantar juntos o “grito de guerra” da
 empresa. Mas foi gostoso sentir que, ufa, estou do outro lado do 
balcão.

Os funcionários da Gramedia são submetidos a sessões de tortura, quero
 dizer, reuniões de equipe, todas as manhãs. Sábado é o “English Day”: 
dia de afiar as competências na língua de Shakeaspere, e pagar um mico 
na frente dos paquerinhas da loja. E eu fui a convidada de honra, a
interpretar o difícil papel da turista perdida que precisa saber onde
fica o banheiro. Não teve um que não se emocionou. Acho que eu merecia
 um Oscar.

No dia seguinte, visita aos templos Sukuh (a.k.a. Templo “Erótico”) e
 Ceto. Mas como eu já disse antes, eu estou meio blasé com essa
 história de templos. Felizmente, eu arrumei um jeito de me divertir.

Meus sinceros agradecimentos à Nina, supervisora da Gramedia, que não 
só me deu cama, como me apresentou as companheiras de templo, me 
acompanhou em dois shows culturais lindos na cidade, e me “emprestou”
 pro melhor amigo, me dando a chance de dormir numa casa Javanesa 
tradicional, ao som do sininho das vacas e dos berros dos bodes.

Nana

A fofa da Nana merece uma menção honrosa em Solo. Finalmente vi uma indonesiana falar palavrão. Usar tecidos tradicionais com criatividade e ousadia. Mostrar seu lado rebelde e artista. A estudante de dança, natural de Sumatra, me informou sobre as performances alternativas da cidade. Me deu carona, com seus amigos igualmente divertidos, muçulmanas de véu e senso de humor afiado, de Solo a Yogyakarta. E me deixou louquinha pra vê-la, um dia, dançar nos palcos de Montreal.

Yogyakarta

Fivi

Se a Fivi fosse uma flor, ela seria uma mistura de orquídea selvagem e dente-de-leão. Como foi bom brincar de mulherzinha com a Fivi por dias a fio. Três horas de massagem, exfoliação corporal e banhos de creme na segunda, tudo por menos de 8 dólares. Conversa sobre marido e panquecas pro café-da manhã ao pé da cozinha na terça. Tratamento facial e sessão de fotos – pois minha anfitrião é aspirante a modelo!, nas dunas de areia, na quarta. Foi um prazer deixar a cidade dos templos e bazares de lado em troca da companhia dessa garota esperta, viajada e sensível. Rir demais com essa “mulher-bicha”, que quem diria, não é um conceito exclusivamente ocidental.

Mia

Eu achava que minha mãe trabalha demais. É porque eu ainda não conhecia a Mia. Mia dorme às 20h e acorda à 1 da manha. Segundo ela, cheia de energia e entusiasmo: há muito trabalho a ser feito. Enquanto o resto do mundo dorme, Mia escreve livros de inglês. Ela já conta com 5, todos publicados pela sua própria editora. Mia tem uma escola de inglês, que em seus dois aninhos de vida já conta com mais de 100 alunos. Mia trabalha com seguros, pra sustentar seu negócio. Ela é mãe e esposa. Anfitriã de incontáveis couchsurfers, com quem ela faz questão de fazer passeios pela cidade. E ela ainda arrumou tempo pra me levar no karaokê, no museu e no restaurante.

Ah, sim: ela é Mestre de cerimônias em eventos e apresentadora de um programa de rádio semanal. Tudo isso em inglês, que nem é a sua língua materna. E que eu tive o prazer e a honra de participar, como entrevistada.  Conversamos no ar sobre imigração, sobre Brasil e Canadá, sobre turismo, sobre jornalismo. E como foi bem entrar de novo em um estúdio, do outro lado do mundo, e do outro lado da bancada.

Claro que nem tudo é perfeito: Mia e fã da Céline Dion e da Shanya Twain.

Comments

2 people commented so far
  1. Adoro voltar no blog, navegar pelos países e descobrir outro post que não tinha lido :)

    by Danilo Poveza on 2012.03.16
  2. Que bom Dani! Também reli e viajei de novo um pouquinho em plena quinta-feira pela manha :)

    by Bia on 2012.03.16

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