mo•jo n., 1. short for mobile journalist. 2. a flair for charm and creativity.

Words

  • by Roberto Rocha
  • published from Singapore
  • on 2010.10.12

Em Cingapura, é a comida que te consome

Uma tragicomédia em três atos

Ninguém passa fome em Cingapura. Falta oportunidade pra isso.

Ato 1, Cena 1

O termo “comida de rua”, usado bastante por aqui, talvez venha do fato que da sua mesa é possível ver um pedacinho de rua ao longe. Lau Pa Sat é a principal praça de alimentação no centro financeiro de Cingapura, um antigo mercado convertido, com cerca de 100 lojas oferecendo comida asiática.

Cada estande tem uma borda de vidro e uma placa luminosa mostrando fotos dos seus produtos. Desdmond, um advogado local com quem fizemos amizade, circulou entre o aglomerado de mesas e cadeiras com facilidade, a despeito da sua cadeira de rodas.

“Nossa primeira missão é encontrar uma mesa,” ele aconselhou.

Seguindo a dica, eu rapidamente peguei um assento. Na mesma hora um chinês bem sério fez o sinal de “não” com os dedos, enquanto dizia algo em singlish (apelido do inglês, língua nacional de Cingapura, falado com o tempero local).

“A mesa já está ocupada,” me explicou Desmond. Aprendemos que em Cingapura é costume reservar a mesa com um pacote de lencinhos Kleenex enquanto você compra a comida.

Ato 1, cena 2

“Qual é a especialidade local,” eu perguntei com um olho virado pro Desmond e o outro olhando pra uns patos vermelhos laqueados perigosamente pendurados numa tenda vizinha. Mesmo de longe eu quase podia sentir o gosto dos famosos cinco temperos chineses.

Advogados são bons de leitura de linguagem corporal, e sem demora o Desmond pediu um dos patos. Acionando sua elegante cadeira de rodas elétrica, ele foi para a barraca vizinha e pediu mais dois pratos: ostras fritas e char kway teow. Na volta, ele deu uma parada em uma quarta barraca e trouxe um saquinho com três bananas empanadas.

Em Cingapura, o povo vive com pressa. Sempre um compromisso, reunião ou encontro pela frente. Ao contrário dos seus vizinhos do sudeste asiático, você raramente vê um nativo de Cingapura sentado por aí sem fazer nada. O tempo pra comer também é restrito, o que talvez explica o porquê da comida ser tão lubrificada, reduzindo assim o tempo de mastigação.

Após comer parecia que a gente tinha dado uns malhos em uma frigideira oleosa, mas tudo estava muito saboroso. O pato, especialmente, estava estupendo. Todos deixaram comida no prato. E duas das três bananas saíram intactas.

“Vamos pedir mais alguma coisa,” o Desmond ofereceu. Nós rimos educadamente da sua piada. Ele pareceu não entender.

Em Cingapura, com comida não se brinca.

lau pa sat singapore

Ato 2, cena 1

Noitadas agitada são sinônimo de café-da-manhã bem tarde, então geralmente a gente ia pra rua ao meio-dia já de estômago cheio. Mas quando encontramos um cara de Cingapura super bacana que havíamos hospedado ano passado em Montréal, através do Couchsurfing, ele estava com fome e querendo almoçar.

“Tem um lugar aqui famoso pelos bolos (salgados) de cenoura,” disse Daniel instantes após nosso encontro numa praça de alimentação em Little India. A gente o informou que, apesar da nossa curiosidade, não comeríamos até bem mais tarde.

Ele sumiu por cinco minutos pra buscar sua refeição. Na volta, ele trazia dois pratos. Num deles, um stir-fry feito de cubos de massa, cenouras raladas e cebolinhas. O outro prato tinha os mesmos ingredientes, mas ao invés de claro o prato era escuro, devido ao molho de soja.

Esses são os tais bolos de cenoura.

“Quando eu era criança, eu preferia o bolo escuro,” ele disse. “Hoje em dia eu gosto mais do claro.”

E realmente, o bolo branco era mais saboroso, carregado de alho e especiarias. Seu irmão escurinho tinha um gosto adocicado.

Apesar da gente já estar com a barriga cheia de café-da-manhã, nós encaramos algumas garfadas. Daniel pediu licença e voltou com um prato de rojak, uma salda de frutas e vegetais coberta com molho de amendoim. Ele havia esquecido de pedir a sua refeição.

A gente só conseguiu comer um terço de cada bolo de cenoura. Uma garfada mais necessitaria de uma bomba estomacal ou bulimia prévias. “Vocês ainda estão com fome?,” perguntou Daniel.

Certo, eles gostam de zoar com os turistas, a gente pensou. É a pegadinha nacional. Você tem que achar algum jeito de extravasar nesse país tão cheio de ordem, limpeza e regras.

Daniel levantou e, novamente, em cinco minutos, voltou com duas tigelas. Uma estava cheia de uma espécie de spaghetti preto gelatinoso e cubos de gelo. A outra tinha um creme aerado branco.

80% das duas sobremesas foram deixadas intactas na mesa.

Ato 2, cena 2

O caixa na loja de sobremesas Ah Chew Desserts escolhe um consumidor ao acaso para concorrer a uma segunda porção de doce. Eu fui um dos escolhidos após pagar pela nossa pasta de amêndoas com bolas de gergelim e a gelatina de manga com sagu do Daniel.

O cara me pediu pra inserir uma bolinha de borracha numa estrutura de vidro cheia de varetas. A gravidade se encarregaria de jogar a bola caixa abaixo até que ela caísse em uma das oito aberturas na base. Minha bola caiu no “Grass jelly with fruits”.

O caixa então carimbou o verso do meu recibo: válido para uma sobremesa grátis, até 30 dias após a data da compra. Legal! Eu poderia voltar lá no dia seguinte.

Cinco minutos após minha primeira colherada de pasta de amêndoas – mais para uma sopa fria, na verdade – a garçonete trouxe uma tigela transbordando de gelatina e frutas em cubos. Ela pediu meu recibo carimbado.

“O quê,” ela me perguntou sem acreditar quando eu disse que não queria a sobremesa naquela hora. “Você só vai comer um prato?”

Uma tenda de comida em Cingapura. Cada vendedor recebe uma classificação – nesse caso, um “A”, a nota mais alta – de acordo com a limpeza do lugar.

Ato 3

Il Lido é um restaurante no Sentosa Golf Club, um playground pra ricos numa península ao sul de Cingapura. Nós fomos jantar lá convidados por um grupo de advogados e empresários com quem fizemos amizade.

Desmond, nosso amigo advogado é apaixonado por vinhos finos. Ele sugeriu que todos nós pedíssemos o menu de degustação, já que ele tinha trazido quatro vinhos diferentes que acompanhavam especificamente aqueles pratos.

O banquete começou com atum selado na frigideira, seguido de duas vieiras grelhadss com prosciutto crocante, tagliatelli com molho de tomate e lagosta e steaks de filé mignon. Para encerrar, petit-gatêau com sorvete de creme. Capuccinos e vinho de sobremesa completaram a refeição.

Duas coisas unem o povo de Cingapura: limpeza e amor pela comida. Qualquer discussão, seja qual for o tema, vai acabar em culinária. Todo mundo parece ser um expert. Ninguém ficou em cima do muro. O veredito: a comida estava medíocre e as porções, pequenas demais.

Veio a conta. Nada daquelas discussões sobre quem paga o quê. Uma pessoa se ofereceu para pagar a fatura, e o resto do grupo concordou em enviar sua parte pelo bankline.

Um dos convivas nos olhou e disse, “Vocês estão a fim de comer comida de verdade? Nós estamos indo jantar. Conhecemos um lugar que faz noodles de carne maravilhosas.”

Recusamos a oferta delicadamente. No dia seguinte, ficamos sabendo que a turminha pediu cinco pratos.

Epílogo

Recusar comida em Cingapura é tão produtivo como teclar cinco vezes na tecla Enter do computador, na esperança que a operação se apresse. Insistir é inútil.

Para o povo daqui, a comida é sagrada . Nessa cidade-país, que não tem campo ou história nacional mais antiga do que 190 anos, nenhuma cultura sobrevivente do seu povo nativo, comida é a identidade nacional.

É como o povo expressa seu carinho. É como eles agradam e honram os visitantes. É o que eles sabem fazer de melhor.

O desafio pro turista é se sentir lisonjeado, ao invés de frustrado e indigesto.

E se você quiser ficar podre de rico, descubra como o povo daqui não é obeso e faça um pílula com a tal fórmula.

Comments

5 people commented so far
  1. I think FOOD is a cantonese culture. The way you describe Singaporan’s hospitality 100% resembles Hong Kong people’s love for food. A typical day would start with breakfast, then snack around 11 a.m., then lunch between 12 p.m. to 2 p.m., then afternoon tea around 4/5 p.m., then dinner around 8 p.m., then “Siu Yeh” – wee-hour food after midnight…then the whole food ceremony repeats again the next day. Me too questions why HK people still keep their slim figures considering the amount of food they consume with not much physical activities. I swear, they must have some super high-rate metabolism in their genes. Thanks for sharing a piece of sweet reminiscent.

    by Adelina on 2010.10.13
  2. That makes sense, since Singapore’s population is mostly Chinese. But everyone, Indians and Malays, participate in the food craziness.

    by Roberto Rocha on 2010.10.13
  3. É meu caro Roberto…. depois de ler o seu relato – delicioso como toda essa comilança descrita – devo dizer que infelizmente vc acabou de estragar a minha noite.
    Eu estava me preparando pra mandar ver num incrível miojo temperado com um fantástico molho de sardinhas em lata e maionese e para acompanhar esse prato maravilhoso já tinha deixado na geladeira uma pet de 1,5 lt. de schin-cola.
    É meu amigo…. vc realmente estragou a minha noite…. Pergunto: o quê é que eu faço agora com o meu miojo ??? – não vale resposta mal-criada -

    by jose carlos saia on 2010.11.11
  4. Zé Carlos: aprenda a conzihar um belo bolo de cenouras frito. Suas noites nunca serão estragadas.

    by Roberto Rocha on 2010.11.15
  5. Thanks for shranig. Always good to find a real expert.

    by Juan on 2015.07.05

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