Words
Lobos em pele de cordeiro: Parte II
Em comum eles tinham a pouca idade, o aspecto simples e uma aparente vontade de nos ajudar sem pedir nada em troca. Vietnamitas boa-praça, na nossa opinião cidadãos acima de qualquer suspeita.
Ou você desconfiaria de um quase adolescente solícito sentado ao seu lado num país pacífico como o Vietnam?
Segundo caso: O Trombadinha em Treinamento
A viagem corria como era de esperar. O motorista do micro-ônibus que nos levava de Ho Chi Minh a Dalat, a “Campos do Jordão” do Vietnam, não faria feio como motorista de ambulância. Do ar-condicionado prometido quando compramos a passagem, nem a sombra. Pra cada 4 assentos, eles enfiavam uns 5 neguinhos. E a cada minuto, a buzina era disparada umas 15 vezes.
Enfim, nada de extraordinário.
O trajeto duraria umas 6 horas. Fazer esse percurso num ônibus grande de viagem é fichinha. Mas numa van onde você fica sentado em ângulo reto, colado no seu companheiro de banco, suando bicas e sem apoio para o pescoço, o bicho pega. Chega uma hora que a bunda perde a sensibilidade. Dormir é um desafio: aonde é que você enfia o pescoço?
Lá pela quinta hora de viagem, o Beto resolveu apoiar a cabeça nos braços e se encostar no banco da frente. Uma tentativa desesperada de mudar de posição. Seu colega de assento pareceu se penalizar e cutucou o seu ombro: apenas com mímica, já que ele não falava inglês, ele começou a dar sugestões de como o Beto poderia descansar melhor. “Se encosta assim, aqui no banco ó. É só você empurrar seu quadril pra frente e deixar a cabeça aqui atrás”, ele dizia com o corpo e as mãos. Não diga!
O Beto, meio grogue, mal reagiu. Mas a situação me fez sorrir. Uma coisa é alguém te ver com expressão confusa, camisa florida e um mapa gigante aberto no meio de uma avenida e te oferecer ajuda. Outra coisa é um companheiro de ônibus desconhecido querer te mostrar como dormir. Apesar do conselho ter sido inútil, achei o menino prestativo e a cena inusitada.
Mas meu encantamento tinha hora pra terminar. De olhos fechados, o Beto sentiu uma mãozinha roçar na sua perna. O menino ao lado parecia dormir. Mas não passaram cinco minutos e a mãozinha, desta vez mais decidida, já alcançava a carteira do Beto guardada no bolso lateral da bermuda.
Felizmente meu querido Mojo é muito vivo e agarrou a mão do garoto no ato. O vietnamitazinho, pego com a boca na botija, era a pura expressão da vergonha: olhos baixos, ombros caídos, boca curvada e cabeça baixa. Com cara de puto e mímica, o Beto mandou ele sentar no banco da frente, que nesta hora já estava vazio.
A cena foi triste e patética. Dividir um micro-ônibus com um grupo pequeno de pessoas, todas com o mesmo destino, dividindo a mesa na parada pro jantar, compartilhando as agruras e a excitação de ir pra um lugar novo cria uma espécie de liga no grupo. Chame-me de romântica, mas por aquelas 6 horas, estamos todos dentro do mesmo barco, conhecemos nossos rostos, somos companheiros de viagem.
A gente só torce que a vergonha dele tenha sido tanta que ele decida mudar de profissão.

Comments
Ai, gente…. Bom,,,, já tive num Uno com 6 pessoas + 2 cachorros (dálmata, graaaande) naqueles trânsitos de Carnaval pra Ilha praia. Tá bom pra ti?
Se isso tivesse acontecido num desses países muçulmamos ortodoxos, acho que o aprendiz de trombadinha estaria maneta numa hora dessas
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