Words
Filosofando sobre arrotos
Quando a gente viaja, descobrimos que nem sempre nosso jeito é o único ou o certo. Que a nossa cultura é apenas mais uma entre tantas outras. Que os seres humanos, no fundo, têm as mesmas necessidades, seja lá quais forem as suas diferenças.
Tudo isso é muito lindo. Mas é eu ouvir um indiano arrotar alto na mesa ao meu lado que minha vontade é, feito mamãe, dar uma bronca seguida de uma aulinha de boas maneiras.
É só eu ver um cara reunindo aquela catarrada sonora na garganta, antes de arremessar tudo com gosto na calçada, e eu tenho vontade de ir lá bater um papo com ele sobre hábitos de boa higiene.
É eu sentir uma mulher me empurrando loucamente pra tentar pegar meu lugar na fila, e meu instinto é mandar um “ô minha filha, não tá vendo que eu cheguei antes não”?
E ao ser encarada, ao andar na rua ou sentar um restaurante ? Eu grito por dentro um “perdeu alguma coisa aqui, foi?”
A Archana, uma indiana dançarina super graciosa que eu conheci me contou que ao passar uma temporada estudando na França ela ficou hor-ro-ri-za-da ao ver seu colega de classe russo assoar o nariz na classe. E que o russo, por sua vez, achou a Archana nojentona quando ela deu um sonoro arroto depois do almoço.
Como é difícil aceitar nossas mútuas diferenças culturais. Como é duro olhar para outros hábitos com olhos de curiosidade antropológica. No meu caso, pega forte tudo o que involve fluídos e sons naturais. Eu passo os dias a julgar, condenar e criticar intimamente cada um desses gestos. E isso cansa.
O detalhe é que a estrangeira aqui sou eu. Eu sou a visita, que naturalmente, não está em posição de criticar os hábitos e a cultura compartilhada por mais de um bilhão de anfitriões.
Mesmo porque eu, por ignorância ou esquecimento, também já fiz coisas que por aqui são consideradas rudes. Mas jamais recebi lição de moral de indiano algum ao, por exemplo, comer com a mão esquerda – mão que deveria ser reservada para a higiene, e nunca para levar comida à boca.
Não, nunca recebi nem sermão ou olhar torto. Os indianos são delicados demais pra fazer isso.
Lembro com graça de que ao fazer intercâmbio para os Estados Unidos, aos 15 anos, fui avisada com apostila e tudo que os hábitos, alimentação e clima diferentes no novo país poderiam provocar uma série de sintomas, como letargia, irritação, sonolência e outras mazelas, e que a isso chamamos choque cultural.
A-hã. O país dos Nikes, McDonald’s, do Kleenex e da Madonna. Aqueles bárbaros!

Comments
jijijij! lol!!
When I arrived in Mtl. I lived the same thing! thanks to this multicultural city!
Hard to understand that all the good manners I have learned since I was born are not the universal ones. There are no universal “good manners” EUREKA!
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