mo•jo n., 1. short for mobile journalist. 2. a flair for charm and creativity.

Words

  • by Bianca M. Saia
  • published from Singapore
  • on 2010.11.06

Vivendo a mil por hora em Cingapura

DNA bridge

Em Cingapura, ao tomar um ônibus de dois andares, você pode consultar uma placa luminosa que indica o número de assentos disponíveis no andar superior. Isso te poupa da tremenda inconveniência de subir as escadas e perceber lá em cima não há lugar pra sentar.

Dentro de um elevador, no centro da cidade, uma mini televisão de plasma exibe os noticiários internacionais. Quem disse que todas aqueles segundos gastos entre o térreo e o 12o. andar também não podem ser produtivos?

Em Cingapura, a eficiência é a lei.

Outros pequenos exemplos: ao fazer a baldeação no metrô para trocar de linha, você não precisa subir ou descer escadas e atravessar grandes corredores. Os trens de linhas opostas são instalados frente a frente. Alguns passos bastam.

No zoológico – por sinal o mais bem-feito que eu já vi – os animais são alimentados em horários que seguem uma sequência lógica. Os tigres brancos comem às 14h30, e os gorilas, seus vizinhos, às 14h45. Tudo para que você possa ver todos os bichos almoçarem sem ter que ziguezaguear pelo parque. Se quiser otimizar ainda mais o seu tempo, carrinhos elétricos na entrada estão disponíveis para aluguel.

Tanta eficácia e praticidade – fantásticas pra que vem a Cingapura a turismo – são na verdade sintomas de uma epidemia: a síndrome da correria.

Afternoon jogger

Veja a cena: o domingo estava ensolarado. Eu, o Beto e nosso querido anfitrião Harveen iríamos passar o dia na ilha Pulau Ubin curtindo a natureza, fazendo passeio de bicicleta e tomando água de côco. Um dia tranquilo, certo? Não para o Harveen, que ao ver que o trem já estava na estação partiu em disparada pelo corredor, e a gente atrás tentando alcançar, correndo escada rolante abaixo pra gente não perder o trem. Trens esses que passam a cada 3 ou 4 minutos.

Ao chegar na balsa, nos disseram que a gente teria que esperar o barco, de 10 pessoas, ficar cheio antes de zarpar. O Harveen levantava, sentava, visivelmente tomado pela agonia de quem se sente impotente, se desculpando efusivamente pra gente pela demora de menos de 10 minutos.

Detalhe: Ninguém nos esperava, estávamos sentados olhando para a água e tínhamos o dia inteiro pela frente.

E esse está longe de ser um caso isolado ou o comportamento de um cara meio inquieto. Em Cingapura, todos parecem andar rápido. O Blackberry sempre a tiracolo é consultado e usado para responder e-mails mesmo em jantares finos, durante conversas animadas entre amigos às 23hs numa sexta-feira. Para não ter que enfrentar a espera do táxi, tem gente que fura a fila andando alguns metros e pescando sorrateiramente o táxi que se dirigia à fila. Perde-se em civilidade, mas ganham-se preciosos minutos.

Em 8 meses de viagem nunca tivemos a agenda tão cheia. Pulávamos de encontros a compromisso a passeios a almoços e a jantares. Nosso roteiro era diariamente orquestrado e agendado pelo nosso anfitrião e a sua turma de amigos, que não podiam conceber que a gente pudesse vagar sem rumo, passear sem propósito. Os bate-papos, apesar de relaxados e bastante interessantes, eram geralmente sobre temas como política, economia, imigração, história, tecnologia. Nada de gastar o verbo por horas a fio com piadas ou papinho besta.

“Quanto tempo vocês vão passar no museu?”, nos perguntavam. Para a gente, acostumados com a total liberdade há tantos meses, o conceito de decidir quanto tempo a gente iria dedicar a uma passeio era esdrúxulo.

Para eles, é um modo de vida. Não há tempo a perder.

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