mo•jo n., 1. short for mobile journalist. 2. a flair for charm and creativity.

Words

  • by Bianca M. Saia
  • published from Australia
  • on 2010.05.05

As 12hs mais longas do mundo

Nada como passar por um aperto filho da mãe pra se lembrar de um dia com riqueza de detalhes e ter histórias pra contar que os amigos vão querer escutar até o fim.

Ir à praia, passear no centro de uma cidade nova, comer no restaurante e sair pra tomar cerveja são coisas costumeiras e deliciosas de se fazer numa viagem. Mas essas experiências raramente são as mais memoráveis ou as que mais te fazem evoluir. E não é pra isso que partimos?

Eu tinha passado uma das manhãs mais lindas da viagem até agora. Eu diria que uma das mais emocionantes da minha vida. O dia estava ensolarado, a companhia, perfeita, e eu era só euforia.

Chega a hora de procurarmos um camping pra passar a noite. Uma experiência sempre interessante, já que quando se acampa em lugares não designados tudo que temos são os nossos olhos e instintos pra nos guiar até o lugar ideal.

Mas nem sempre o tal lugar ideal aparece. Cansados e sem melhores perspectivas, paramos ao lado de uma fazenda, num trecho de mato alto. Sem luz  ou banheiros, com o chão enlameado e num ponto onde estávamos visíveis pra quem passa. Um canto bem meia-boca, mas a noite caía, a gasolina estava no fim e era preciso levantar acampamento. No fundo, o lugar era tão inapropriado que sentíamos estar embarcando numa real aventura.

E começa o ritual: Montar a barraca. Abrir as cadeiras. Ligar o fogão. Fixar as tochas. Etc.etc.

Poucos minutos de trabalho depois ouvimos um grito do belga Matthias:

-Sanguessugas! Tem 2 sanguessugas na minha perna! Esses animais são umas pestes, vamos dar o fora daqui!

E toca guardar a barraca, fechar as cadeiras, desligar o fogão, apagar as tochas, sair correndo dali, sabe-se lá pra onde. De volta à estrada de terra. Já estávamos rodando há cerca de meia hora. E eu tive um estalo.

-Minha mochila! Alguém pegou minha mochila? Alguém viu minha mochila?

Não. Ninguém viu, ninguém sabe. No nosso breve acampamento de beira de estrada eu tinha colocado ela no teto da campervan, como eu vinha fazendo todas as noites, pra que ela não ficasse no meio do caminho dos preparativos. Mas na pressa e estressada pelos sanguessugas não lembrei de tirá-la de lá. E, no escuro, ninguém mesmo viu onde ela estava.

Demos meia-volta. Éramos 4 a varrer a estrada poeirenta e escura com os olhos. Encontramos o lugar onde tínhamos acampado antes: nada. Voltamos pelo mesmo caminho, a 30 km/h, em silêncio. A cada metro percorrido minha ansiedade crescia. Chegamos no fim da estrada. Minha amada mochila de 50l, escolhida a dedo, recheada com tudo o que eu tenho para passar o ano, com meus 2 passaportes, AU$450, algumas centenas de reais, centenas de dólares em remédios pra malária, meus fones de ouvido anti-ruído, drypacks, gravador, necessaire, todos os gadgets e cada peça de roupa que foi cuidadosamente escolhida para a viagem levando em consideração seu peso, versatilidade e durabilidade… puf, já era.

O lado bom da história: nada como um pequeno desastre para unir um grupo. Vi o primeiro gesto de de carinho e humanidade do Matthias, um cara pouco dado à demonstrações emotivas. Fui abraçada e consolada pelas meninas. Ouvi suas próprias histórias de traumas parecidos, com destaque pra doidinha da Gabi que largou suas roupas e carteira na praia, foi nadar nua no mar da Tailândia e ao sair da água não encontrou seus pertences, tendo que se virar, nua, sem um tostão e sozinha. E viramos um grupo com uma missão: encontrar a minha mochila. Foi decidido que no dia seguinte iríamos à polícia logo cedo.

Isso não impediu que eu passasse a noite quase em claro. Me sentindo nua, vulnerável, com vontade de gritar “eu quero a minha mãe!” e voltar correndo pra casa. Lamentando o prejuízo, e triste de ter que me separar do grupo para poder resolver a papelada e comprar tudo novo, de novo. Pensando no que eu ia fazer diferente dali pra frente. Tentando racionalizar que, no fim das contas, eu tinha perdido dinheiro, e que isso nem é tão grave. Mas falhando e me sentindo super pra baixo. E me culpando, tanto pela desatenção, como a de colocar o grupo nessa situação.

No dia seguinte, no posto policial, nada. Fiz um boletim detalhado onde precisei descrever até mesmo a marca e tamanho das minhas sandálias. E nenhum grande consolo além de “se a gente encontrar sua mochila, telefonamos”.

Ai.

O próximo passo do plano era ir para uma Internet café, já que a única identificação que eu pus na mala era o meu e-mail. Eu quase não queria abrir o navegador, temendo o vazio da caixa postal e a confirmação do abacaxi.

Logo na primeira linha, um email com o título:

“Backpack”

“Bianca,
i found your backpack yesterday on the way home from work. I have to apologise we opened your back pack to make sure there was nothing suspisious and as so as we saw your passport we contacted the police at Port Macquarie and will be droping of this morning @ about 9am
I hope this gets to you in time to continue enjoying your holiday in Aust.”


Minha mochila estava intacta, e foi retornada num posto policial com tudo dentro, até o último centavo. Demorou um pouco para a alegria e alívio chegarem de vez. Foi comendo camarões frescos gigantes na churrasqueira na beira de um lago e brindando juntos com vinho barato, que a vida parecia linda outra vez. A viagem, a mochila e eu estávamos salvos.

Comments

2 people commented so far
  1. Mulher!!!! Que aperto!!! Pior que toda vez que viajo sempre deixo meu rastro (uma peça de roupa, a bijoux predileta, o frasco de shampoo…). Quem sabe um dia um desses pertences vira fóssil e eu entre para a eternidade?!?!?! Think positive ;)

    by Cris Leite on 2010.05.19
  2. Cris, quase que eu deixei um rastro do meu tamanho. Mas desde esse episódio eu tenho andando com a cabeça e a mochila no lugar :)

    by Bianca M. Saia on 2010.06.20

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