Words
Fazendo (e perdendo) amigos na estrada
E chegou a minha vez. Ó pedaço de mim, ó metade afastada de mim. Encaro a primeira grande perda, a primeira importante despedida na estrada. Meu cotovelo está dodói.
Amizade é algo que normalmente cresce em câmera lenta, um processo invisível a olho nu. É uma relação que, feito sementinha, se plantada em terra boa e regada com carinho tem tudo pra virar planta, arbusto, árvore frondosa de tronco largo e raízes profundas. Um processo que não pode ser apressado.
Mas na estrada, falta um elemento fundamental na criação de uma amizade: o tempo. Você conhece alguém que mora em outro país e já sabendo de antemão que essa relação tem data certa pra acabar. Não há tempo para cerimônias, não há razão em fingir o que quer que seja pra quem você provavelmente nunca mais vai ver na vida.
Na estrada, temos a mesma profissão: somos mochileiros. Seguimos a mesma moda: camisetas, roupa de banho, tênis e chinelo. Moramos nas mesmas casas: os albergues e as barracas. Andamos de trem e metrô, comemos macarrão instantâneo, bebemos cerveja barata. Somos da mesma tribo, queremos conhecer o mundo usando nossos próprios pés.
E a única coisa que sobra pra te diferenciar é a pessoa que você É. O que você tem a dizer. Qual é a sua experiência de vida, seus sonhos, seus objetivos, seus medos. Aquelas partes da gente que geralmente, por timidez ou proteção, só revelamos pra umas poucas pessoas.
E foi com entrega, autenticidade e intensidade que passei a semana com meus últimos companheiras de viagem, Moa, Gabi e Matthias.
Começamos a viagem de uma semana na campervan como completos desconhecidos: eu fui parar no grupo respondendo a um anúncio de internet. Eles buscavam uma quarta pessoa para ajudar com os custos de viagem. Eu buscava um grupo com quem compartilhar uma roadtrip na costa leste da Austrália.
Juntos, resolvemos imprevistos, cozinhamos e comemos, fizemos a louça, festejamos, dançamos, tomamos sol e porres, desbravamos o país.
Já na primeira noite juntas na barraca, eu e a Moa gritamos e nos abraçamos com medo dos barulhos de bichos desconhecidos. Vi ela pular da pedra mais alta da cachoeira, tentar surfar, me contar sobre suas dificuldades de relacionamento e organização, sua perspicácia, o quanto ela é carinhosa, e sua risada, cativante.
E a Gabi, que não estava certa sobre a diferença entre a Bélgica e a Bulgária, mas que do alto dos seus 21 anos me ensinou tanto. Ela parecia guardar as melhores qualidades de uma criança, na sua relação tão livre com a própria nudez, ao me fazer dançar ouvindo músicos de rua, na sua rebeldia, preguiça, e ao me fazer chorar de rir com suas tiradas inesperadas – feito criança. Uma alma hippie escondida atrás dos seus óculos de sol de grife.
Por uma semana, elas foram minhas amigas, minhas irmãs, minha família. Daqui pra frente, elas vão ser uma memória. Cada uma segue sua própria jornada, e a vida continua, com um buraquinho no meu coração que não tem como ser preenchido.
Jag älskar dig girls!

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